A stablecoin USD1, associada à figura de Donald Trump, passou a Paxos‑USD (PYUSD) em capitalização total, atingindo 4,9 bilhões de dólares. O marco reforça a crescente intersecção entre cripto, finanças e narrativa política, especialmente em um ano de eleições nos EUA.

Entendendo a USD1

A USD1 é uma stablecoin lastreada em ativos reais, semelhante ao modelo de outras moedas digitais lastreadas em dólar, porém com forte apelo narrativo ligado à figura de Trump. O token, emitido em várias blockchains, surgiu no segundo trimestre de 2025 e ganhou tração rápida entre comunidades que veem o presidente dos EUA como símbolo de liberalização regulatória e aversão a bancos centrais.

Entre a criação e o pico de 4,9 bilhões de dólares, o crescimento se concentrou em poucos meses, o que aumenta a sensibilidade da moeda a eventos políticos e comunicados diretos da figura central.

O que separa USD1 de PYUSD

A PYUSD, emitida pela Paxos, segue um modelo de stablecoin totalmente regulado e com histórico de auditorias e relatórios públicos. A liquidez dela está em grandes exchanges e protocolos DeFi que priorizam compliance. Já a USD1 funciona com:

– Base mais ideológica, com comunidades de apoio concentradas em certos canais.
– Maior dependência de confiança em um personagem público, e não só em reguladores e estrutura de governança.

Para o mercado de DeFi, isso cria um efeito de “cluster de risco”: fluxos que entram em protocolos aceitando a USD1 tendem a ser mais voláteis em prazo curto, por conta de notícias políticas e comunicados fora do controle das próprias equipes técnicas.

Por que 4,9 bilhões de dólares importa

Em termos numéricos, 4,9 bilhões de dólares é um patamar relevante, embora ainda abaixo de outros grandes stablecoins como USDT e USDC. No entanto, o fato de a USD1 superar a PYUSD em capitalização mostra que:

– Narrativas de símbolo político conseguem atrair fluxo em cripto, especialmente em eleições de 2026.
– Parte dos investidores vê a tecnologia de stablecoin como um canal de exposição indireta à agenda política, sem precisar investir diretamente em ações de empresas afetadas.

Para o Brasil, isso é importante porque abre caminho para maior uso de stablecoins em fluxos de capital voltados a mercados políticos, com risco de volatilidade reflexiva em tempos de greve de notícias.

Riscos para o ecossistema

O aumento da participação de stablecoins ligadas a figuras públicas também amplia riscos de:

– Correções abruptas sustentadas por declarações políticas, processos jurídicos ou mudanças de imagem pública.
– Concentração de oferta em um círculo de participantes com agenda política, mais sensível a narrativas de médio prazo.

Para o investidor brasileiro, a leitura prudente é evitar exposição pesada a qualquer stablecoin que dependa de narrativa política, e preferir ativos com lastro transparente, histórico de auditoria e estrutura de governança independente, mesmo que o retorno prometido seja menor em curto prazo.

Quem emite a USD1 e o que está no lastro

Apesar da marca da World Liberty Financial, empresa ligada à família Trump, a USD1 não é emitida nem custodiada por ela. Segundo a documentação oficial do projeto, a emissão, a criação e o resgate dos tokens ficam com a BitGo, custodiante regulada de ativos digitais nos EUA, que também guarda as reservas. O lastro é formado por dinheiro, fundos de mercado monetário de títulos do governo americano e outros equivalentes de caixa, para sustentar a paridade de 1 para 1 com o dólar.

A mesma documentação afirma que relatórios de atestação das reservas são publicados periodicamente e que a estrutura busca se alinhar aos padrões da GENIUS Act, a lei americana de stablecoins. O resgate direto em dólares, porém, só está disponível para clientes elegíveis da BitGo. Os demais detentores dependem de corretoras e plataformas que aceitem a USD1, nas condições de cada uma.

Na prática, isso muda a leitura de risco: a estrutura de lastro e custódia é semelhante à de outras stablecoins de dólar, enquanto o risco político fica concentrado na marca, na governança da World Liberty e na forma como a moeda é distribuída.

De onde veio o crescimento

A ultrapassagem sobre a PYUSD não é tão recente quanto parece. Reportagens de janeiro de 2026 já mostravam a USD1 na frente: em 24 de janeiro, dados do CoinMarketCap apontavam cerca de US$ 4 bilhões de capitalização para a USD1, contra cerca de US$ 3,7 bilhões da PYUSD. Nesse período, a Binance manteve um programa de distribuição de US$ 40 milhões em tokens WLFI para detentores de USD1, com duração de quatro semanas até 20 de fevereiro de 2026.

Esse tipo de incentivo ajuda a explicar crescimento rápido de oferta, mas também indica que parte da demanda pode ser sensível a recompensas temporárias. Para avaliar uma stablecoin, vale acompanhar se a capitalização se mantém depois que os programas de incentivo terminam.

Como fica para quem usa stablecoins no Brasil

Desde 2 de fevereiro de 2026 estão em vigor as resoluções do Banco Central que regulam as prestadoras de serviços de ativos virtuais. Pela apresentação oficial do Banco Central, a compra, a venda e a troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária, caso das stablecoins de dólar, passam a integrar o mercado de câmbio quando feitas por essas prestadoras, assim como transferências para carteiras de autocustódia. As prestadoras devem identificar os donos das carteiras autocustodiadas com que operam e, a partir de maio de 2026, enviar informações detalhadas dessas operações ao BC.

No imposto de renda, stablecoins são declaradas na ficha Bens e Direitos, grupo 08, código 03, quando o valor de aquisição for igual ou superior a R$ 5 mil. A venda entra na conta da isenção de R$ 35 mil por mês junto com os demais criptoativos, e o ganho em reais, inclusive o que vem da alta do dólar, é tributável acima desse limite. O passo a passo está no guia para declarar cripto no imposto de renda.

Perguntas frequentes

A USD1 é emitida pela família Trump?

Não diretamente. A marca é da World Liberty Financial, ligada à família Trump, mas a emissão, o resgate e a custódia das reservas ficam com a BitGo, segundo a documentação oficial do projeto.

Quando a USD1 passou a PYUSD em capitalização?

Reportagens de janeiro de 2026 já registravam a USD1 à frente da PYUSD, com cerca de US$ 4 bilhões contra cerca de US$ 3,7 bilhões em 24 de janeiro, segundo dados do CoinMarketCap citados na época.

Comprar USD1 em corretora no Brasil é operação de câmbio?

Pelas resoluções do Banco Central em vigor desde fevereiro de 2026, compra, venda e troca de stablecoins de moeda fiduciária feitas por prestadoras de serviços de ativos virtuais passam a integrar o mercado de câmbio, com regras de identificação e reporte ao BC.


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