Uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo resultou na prisão de Sidney Oliveira, fundador da rede de farmácias Ultrafarma, e Mário Otávio Gomes, diretor estatutário da Fast Shop. Durante a ação, foram confiscados R$ 1,8 milhão em dinheiro e impressionantes R$ 10 milhões em criptomoedas, revelando a crescente presença de ativos digitais em investigações de crimes financeiros.
Os executivos são investigados por envolvimento em um sofisticado esquema de propina, cujo objetivo era antecipar e garantir a liberação de créditos de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços). Estima-se que o esquema de corrupção e sonegação fiscal tenha movimentado mais de R$ 1 bilhão.
A operação, denominada “Operação Ícaro”, também apreendeu outros bens de alto valor, como relógios de luxo e pedras preciosas, cujo valor ainda está sendo determinado. Além dos empresários, outras quatro pessoas foram presas por participação no esquema de corrupção fiscal.
Entre os detidos, destaca-se Celso Éder Gonzaga de Araújo, apontado como o responsável pela lavagem de dinheiro do esquema. Em sua residência, em Alphaville, foram encontrados R$ 1,2 milhão em dinheiro, US$ 10,7 mil, € 1.590, cerca de R$ 200 mil em criptomoedas, além de relógios de luxo e esmeraldas. O auditor fiscal Marcelo de Almeida Gouveia também foi preso, com R$ 2 milhões em criptoativos e uma quantia significativa em dinheiro.
O esquema, que utilizava a empresa Smart Tax, movimentou milhões de reais, principalmente da Fast Shop e, posteriormente, da Ultrafarma. As transações eram registradas de forma a parecerem legais, com emissão de notas fiscais e recolhimento de ICMS, mas as investigações revelaram que créditos eram liberados de forma irregular e acelerada, muito acima do que as empresas teriam direito. Artur Gomes da Silva Neto, supervisor da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP), é apontado como o principal operador do esquema.
Como o esquema foi descoberto
O ponto de partida da investigação foi o patrimônio de uma professora aposentada. Segundo a reportagem do g1 com base no relatório do MP-SP, Kimio Mizukami da Silva, mãe do auditor Artur Gomes da Silva Neto, declarava R$ 411 mil em 2021. O valor subiu para R$ 46 milhões no ano seguinte e chegou a R$ 2 bilhões em 2023.
Kimio é sócia da Smart Tax, empresa que, de acordo com os promotores, era de fachada, não tinha funcionários e servia para receber a propina. Na declaração de Imposto de Renda, ela justificou o salto patrimonial com a compra de criptomoedas, que teriam sido adquiridas com o lucro da Smart Tax. Foi esse descompasso entre renda e patrimônio que chamou a atenção do Ministério Público.
O MP-SP afirma que a operação resultou de meses de trabalho, com análise de documentos, quebras de sigilo e interceptações autorizadas pela Justiça. Além das prisões temporárias, foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão em cidades da Grande São Paulo, do interior e da capital. Os investigados podem responder por corrupção ativa e passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Por que criptomoedas aparecem cada vez mais em investigações
Cripto costuma ser usada em esquemas de lavagem porque pode ser movimentada rapidamente e sem passar por um banco. Mas a ideia de que ela é invisível para as autoridades está errada. Toda transação de Bitcoin fica registrada para sempre na blockchain, e exchanges que atuam no Brasil informam as operações dos clientes à Receita Federal.
As exchanges nacionais reportam as operações dos clientes, e o próprio investidor precisa informar operações feitas no exterior ou sem intermediário acima de R$ 35 mil por mês, pela DeCripto (IN RFB 2.291/2025), que substituiu a IN 1.888 em julho de 2026. Quando alguém declara um patrimônio em cripto incompatível com a renda, como no caso da Smart Tax, esse cruzamento de dados ajuda a expor a origem do dinheiro.
Atualização (setembro de 2026): a Instrução Normativa RFB 2.291/2025 criou a DeCripto, que substituiu a IN 1.888 a partir de julho de 2026 com um reporte mensal mais detalhado, alinhado ao padrão internacional de troca de informações da OCDE.
O que isso significa para quem investe em cripto
Para o investidor comum, a lição é manter a documentação em dia. A Receita pede que as criptomoedas sejam declaradas em Bens e Direitos pelo custo de aquisição, com quantidade e local de custódia, e que o contribuinte guarde os comprovantes de compra e venda. Um patrimônio em cripto bem documentado, com origem clara dos recursos, é a melhor proteção em qualquer fiscalização.
O nosso guia para declarar criptomoedas no Imposto de Renda explica como preencher cada código e o que guardar de comprovante.
Perguntas frequentes
Como o Ministério Público chegou ao esquema da Ultrafarma e da Fast Shop?
Pelo salto patrimonial da mãe do auditor Artur Gomes da Silva Neto, que foi de R$ 411 mil em 2021 para R$ 2 bilhões em 2023. Ela é sócia da Smart Tax, apontada como empresa de fachada usada para receber propina.
Qual foi o papel das criptomoedas no caso?
Além dos valores em cripto apreendidos, a compra de criptomoedas foi a justificativa apresentada na declaração de Imposto de Renda para explicar o aumento de patrimônio, segundo o relatório do MP-SP.
A Receita Federal consegue ver minhas operações com cripto?
Sim. Exchanges que atuam no Brasil reportam as operações dos clientes, e quem opera no exterior ou sem intermediário também tem obrigação de informar acima do limite mensal. A blockchain ainda mantém o histórico público das transações.
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