Atualizado em 30/09/2026, com base no Perguntas e Respostas IRPF 2026 da Receita Federal.

Tem Bitcoin e bateu aquela dúvida na hora do Leão? Este guia explica, em linguagem de gente normal, como declarar bitcoin no imposto de renda, quando você precisa declarar e quando realmente paga imposto. Ele vale também para ether, stablecoins, NFTs e as demais criptomoedas: o que muda é só o código usado na declaração.

Aviso: este conteúdo é educativo e não substitui a orientação de um contador para o seu caso específico.

Resposta direta: bitcoin entra na ficha Bens e Direitos, grupo 08 (Criptoativos), código 01, pelo valor de aquisição em reais, quando o custo de cada tipo de criptoativo for igual ou superior a R$ 5.000. Ter cripto parada não gera imposto. Imposto só aparece quando você vende (ou troca) com lucro: em exchange nacional, vendas de até R$ 35 mil no mês são isentas; em exchange estrangeira, o ganho entra na declaração anual com alíquota de 15%, sem isenção.

Neste artigo

Declarar é diferente de pagar imposto

Esse é o ponto que mais confunde:

  • Declarar: informar que você possui cripto (vai na ficha de Bens e Direitos). Não custa imposto.
  • Pagar imposto: só acontece quando você vende com lucro acima de certos limites, ou quando recebe rendimentos tributáveis.

Ou seja, ter Bitcoin parado não gera imposto, só obriga a declarar, dependendo do valor. Se você ainda não tem cripto e quer começar, veja o passo a passo de como comprar Bitcoin na Binance.

Vale lembrar por que isso importa: desde 2019 as exchanges com sede no Brasil enviam à Receita Federal as operações dos clientes. A partir de julho de 2026 esse reporte passou a seguir o padrão internacional da OCDE (a DeCripto), o que facilita cruzar dados também com plataformas de outros países. A Receita tende a saber das suas compras e vendas antes mesmo de você abrir o programa do IRPF.

Quando você é obrigado a declarar

Pela regra da Receita, os criptoativos devem ser declarados quando o valor de aquisição de cada tipo for igual ou superior a R$ 5.000 em 31 de dezembro. Nesse caso, eles entram na ficha Bens e Direitos, com o valor de custo de aquisição (quanto você pagou, não o valor atual).

Dois detalhes que pegam muita gente:

  • O limite de R$ 5 mil é por tipo (código). Por exemplo, R$ 4 mil em bitcoin e R$ 3 mil em ether não obrigam a declarar nenhum dos dois só por causa da cripto, mas R$ 6 mil em bitcoin obrigam.
  • Abaixo do limite, a declaração do ativo é opcional. Se você já entrega o IRPF por outro motivo, informar mesmo valores pequenos ajuda a manter o histórico de custo e evita divergências quando o saldo crescer.

A regra está na pergunta 473 do Perguntas e Respostas IRPF 2026 da Receita Federal, que também traz a tabela de códigos abaixo.

Qual código usar no grupo 08 (Criptoativos)

Aqui mora o erro mais comum. Todo criptoativo vai no grupo 08, e o código depende do tipo:

  • Código 01: Bitcoin (BTC).
  • Código 02: outras criptomoedas, as altcoins (ETH, SOL, XRP, ADA, BNB, DOGE, LTC etc.). Cada moeda diferente vira um item separado.
  • Código 03: stablecoins (USDT, USDC, BRZ, DAI, PAXG etc.).
  • Código 10: NFTs.
  • Código 99: outros criptoativos, como fan tokens, tokens de utilidade e tokens de recebíveis, precatórios, consórcio ou crédito de carbono.

Antes do IRPF 2023 tudo ia de forma genérica no código 89 (outros bens e direitos). Se você copia a declaração do ano anterior, confira se os itens antigos já foram migrados para o grupo 08.

Passo a passo na ficha Bens e Direitos

  1. Abra a ficha “Bens e Direitos” no programa ou no Meu Imposto de Renda e clique em “Novo”.
  2. Escolha o grupo 08 (Criptoativos) e o código do tipo de ativo (01 para bitcoin).
  3. Informe a localização (país). Cripto custodiada ou negociada em instituição no exterior é considerada localizada no exterior. Em autocustódia (carteira própria), vale a sua residência: quem mora no Brasil informa Brasil.
  4. Preencha a discriminação: tipo, quantidade e onde está custodiado (nome da empresa com CNPJ, ou “custódia própria”). Exemplo: “0,05000000 BTC custodiados na exchange X (CNPJ 00.000.000/0001-00), adquiridos ao custo total de R$ 8.500,00”.
  5. Situação em 31/12/2024: o valor que já estava na declaração do ano anterior (zero se você não tinha).
  6. Situação em 31/12/2025: o custo total acumulado do saldo que você tinha no fim do ano. Comprou em várias parcelas? Some tudo o que pagou em reais, incluindo taxas. Vendeu parte? Baixe o custo proporcional da parte vendida.
  7. Salve e repita para cada tipo de cripto e cada local de custódia.

O valor informado é sempre o custo de aquisição. Se o bitcoin que custou R$ 8.500 hoje vale R$ 30 mil, você continua informando R$ 8.500. A valorização só aparece quando você vende.

Cripto em carteira própria (Ledger, Trezor, MetaMask, carteira de celular) também é declarada; a obrigação não depende de estar em plataforma regulada. Se você guarda suas moedas por conta própria, vale entender a autocustódia de Bitcoin antes de organizar seus comprovantes.

Quando você paga imposto (ganho de capital)

O imposto incide só sobre o lucro na venda (valor de venda menos custo de aquisição). A regra muda conforme onde a cripto está.

Cripto custodiada ou negociada no Brasil

  • Vendas que somam até R$ 35.000 no mês são isentas do imposto sobre o ganho. A soma considera todos os criptoativos vendidos no mês (bitcoin, altcoins, stablecoins, NFTs), não cada moeda separadamente.
  • Passou de R$ 35 mil no mês e teve lucro? O ganho de todas as vendas daquele mês é tributado, com alíquotas progressivas: 15% sobre a parcela do ganho de até R$ 5 milhões; 17,5% de R$ 5 milhões a R$ 10 milhões; 20% de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões; 22,5% acima de R$ 30 milhões.

Cripto custodiada ou negociada em exchange no exterior

  • Pela Lei 14.754/2023 (“Lei das Offshores”), desde 1º de janeiro de 2024 esses ativos são tratados como aplicações financeiras no exterior. O ganho entra na declaração anual à alíquota de 15%, no ano em que é realizado, e não há a isenção dos R$ 35 mil.
  • Em compensação, perdas comprovadas nessas aplicações podem ser compensadas com ganhos de aplicações no exterior no mesmo ano e, se sobrar, em anos seguintes.
  • Para detalhes de preenchimento (ficha Bens e Direitos com país e quadro de aplicação financeira), veja o guia de como declarar cripto em exchange estrangeira.

O que mudou em 2026: chegou a tramitar a MP 1.303, que queria taxar tudo em 17,5% e acabar com a isenção. Ela caducou em outubro de 2025, então a isenção de R$ 35 mil/mês em corretora nacional continua valendo.

Atenção: trocar uma cripto por outra também conta

Muita gente esquece: permutar (ex.: trocar Bitcoin por Ethereum) é tratado pela Receita como alienação. O valor da venda é o valor de mercado, em reais, da cripto recebida na data da troca. Se houve lucro, pode gerar imposto, mesmo sem você ter “sacado” para reais. O mesmo raciocínio vale ao operar com ativos tokenizados; entenda melhor o que é tokenização.

Isso inclui stablecoins: trocar bitcoin por USDT é uma venda de bitcoin. É um dos esquecimentos mais comuns de quem “realiza lucro” para dólar digital e acha que não vendeu nada.

Cripto recebida como pagamento, staking e airdrop

  • Pagamento por trabalho ou serviço em cripto: é rendimento, avaliado em reais na data do recebimento, e segue a tributação do rendimento (carnê-leão ou fonte pagadora, conforme o caso). O valor recebido vira o custo de aquisição daquela cripto.
  • Staking, rendimentos de DeFi e airdrops: a Receita ainda não tem regra específica e detalhada para cada caso, e há interpretações diferentes entre especialistas. Veja os cenários e cuidados no guia de imposto sobre staking, DeFi e airdrops e, havendo valores relevantes, converse com um contador.

Como pagar, quando devido

Quando há imposto sobre o ganho em cripto custodiada no Brasil, você:

  1. Calcula o lucro (valor de venda menos custo de aquisição), de preferência no programa GCAP da Receita;
  2. Aplica a alíquota;
  3. Gera e paga uma DARF, código de receita 4600, até o último dia útil do mês seguinte à venda.

O GCAP da Receita Federal calcula o imposto e depois é importado na declaração anual, na ficha de ganhos de capital. Perdeu o prazo? Dá para pagar em atraso com multa e juros pela Selic antes que a Receita cobre. O passo a passo completo está em como calcular o ganho de capital e pagar a DARF.

Obrigação mensal: da IN 1.888 à DeCripto

Além da declaração anual, existe um reporte mensal de operações. Até junho de 2026 ele seguia a Instrução Normativa 1.888: exchanges brasileiras informavam tudo, e a pessoa física só precisava informar quando operava em exchange estrangeira ou fora de exchange (P2P, carteira própria) acima de R$ 30 mil no mês.

Desde 1º de julho de 2026 vale a IN RFB 2.291/2025, que criou a DeCripto, alinhada ao padrão CARF da OCDE. Veja o que muda com a IN RFB 2.291/2025 e, se você precisar entregar, o passo a passo da DeCripto para pessoa física.

Quem tem patrimônio relevante fora do país também deve olhar a declaração de Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) do Banco Central, obrigatória quando os bens e valores no exterior somam US$ 1 milhão ou mais em 31 de dezembro. Se a sua cripto custodiada fora entra nessa conta é algo para confirmar com o contador.

Erros mais comuns ao declarar bitcoin

  • Usar a cotação de mercado no lugar do custo de aquisição.
  • Misturar todas as criptos em um item só, ou usar o código errado (stablecoin é 03, NFT é 10).
  • Esquecer carteiras próprias e saldos em exchanges estrangeiras.
  • Ignorar trocas entre criptos e para stablecoins, que contam como venda.
  • Não guardar prova de transferência entre carteiras próprias. Mover cripto da exchange para a sua carteira não é venda e não gera imposto, mas você precisa conseguir mostrar que o ativo continuou seu.
  • Deixar a discriminação vaga. Informe quantidade, onde está e o CNPJ da exchange nacional.
  • Esquecer anos anteriores. Se você omitiu cripto em declarações passadas, avalie uma retificadora antes de ser notificado. Veja o que acontece se você não declarar.

Como se organizar ao longo do ano

A melhor forma de declarar sem dor de cabeça é manter uma planilha de controle, atualizada mês a mês, com data de cada compra e venda, quantidade e tipo de ativo, valor em reais na data, taxa paga e exchange ou carteira usada. Para valores em dólar, a Receita manda converter pela cotação de venda do dólar (PTAX) do Banco Central na data da operação. Ferramentas como Koinly e CoinTracking automatizam parte do trabalho conectando às exchanges. Veja também quais comprovantes de cripto guardar.

Passo a passo resumido

  1. Junte os extratos de todas as corretoras (nacionais e estrangeiras) e carteiras.
  2. Some o custo por tipo de cripto em 31/12. Passou de R$ 5 mil, declara em Bens e Direitos, grupo 08, com o código certo.
  3. Verifique suas vendas mês a mês. Passou de R$ 35 mil num mês em corretora nacional e teve lucro? Apure o ganho no GCAP.
  4. Pague a DARF (código 4600) quando houver imposto.
  5. Cripto no exterior: informe o país de localização e os ganhos realizados na declaração anual (15%).
  6. Guarde tudo por pelo menos 5 anos.

Perguntas frequentes

Tenho Bitcoin parado, sem vender. Pago imposto?

Não. Só declara (se o custo daquele tipo de cripto for de R$ 5 mil ou mais em 31/12). Imposto só na venda ou troca com lucro.

Em qual código declaro bitcoin na ficha de Bens e Direitos?

No grupo 08 (Criptoativos), código 01. Altcoins vão no código 02, stablecoins no 03, NFTs no 10 e outros tokens no 99.

Declaro bitcoin pelo valor de compra ou de mercado?

Sempre pelo valor de aquisição, ou seja, o que você pagou em reais, incluindo taxas. A cotação de mercado não é usada na ficha de Bens e Direitos.

Vendi R$ 1.000 em Bitcoin com lucro. Pago imposto?

Em corretora nacional, se o total vendido no mês (somando todas as criptos) ficou em até R$ 35 mil, o ganho é isento. Mesmo assim, o saldo remanescente continua na declaração anual.

E se eu uso corretora de fora do Brasil?

Aí a isenção não vale: o ganho realizado é tributado na declaração anual a 15% (Lei 14.754/2023), e perdas comprovadas no exterior podem ser compensadas.

Trocar uma cripto por outra paga imposto?

Pode pagar, se houver lucro na permuta. A Receita trata a troca como alienação, avaliada pelo valor de mercado da cripto recebida.

Como declarar se perdi acesso à carteira?

Informe o saldo e o custo pelo último registro que você tem e explique a situação na discriminação. Guarde qualquer evidência do problema e, se o valor for relevante, busque um contador.

Resumo

Ter cripto com custo de R$ 5 mil ou mais por tipo: declara em Bens e Direitos, grupo 08 (sem imposto). Vender com lucro acima de R$ 35 mil/mês em corretora nacional: paga DARF até o fim do mês seguinte. No exterior, 15% na declaração anual, sem isenção. A MP que aumentaria isso caiu, e 2026 segue com as regras atuais, agora com a DeCripto no reporte mensal.

Guias do cluster de impostos de cripto

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Julia Santos
Revisado por especialista
Contadora certificada CEAV (Especialista em Ativos Virtuais) pela ABcripto.
Selo CEAV Fundamentos - ABcripto

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Contadora e editora-chefe do BTCnizando. Especialista em tributação de criptomoedas pela Faculdade Trevisan. Ajuda brasileiros a declarar Bitcoin no IR com segurança.