No começo de janeiro de 2026, depois da queda de Nicolás Maduro, ganhou as redes a afirmação de que o governo da Venezuela controlaria uma “reserva paralela” de cerca de US$ 60 bilhões em bitcoin e stablecoins, montada para driblar sanções. A tese é antiga em parte, porque o Estado venezuelano usa cripto há anos, mas o número não tem comprovação. Abaixo, o que se sabe e o que não se sabe.

Correção (setembro de 2026): a versão anterior deste texto dizia que a Venezuela acumulava US$ 60 milhões em criptoativos, apresentando o dado como confirmado. O número que circulou foi de US$ 60 bilhões, e ele não foi comprovado. O texto foi reescrito com as fontes disponíveis.

De onde veio a história dos US$ 60 bilhões

Segundo a Fortune, a estimativa foi publicada pelo site Project Brazen no mesmo dia em que Maduro foi deposto e oferecia pouca prova. A tese afirma que o regime teria acumulado bitcoin por três caminhos desde 2018: troca de ouro por cripto, receitas de petróleo pagas em cripto e apreensão de equipamentos de mineração.

O que dizem os especialistas

A reação de quem acompanha dados on-chain foi de ceticismo. À Fortune, Aurelie Barthere, da Nansen, disse que a reportagem original não trazia endereços de carteiras, o que torna a afirmação difícil de verificar. Mauricio di Bartolomeo, cofundador da Ledn, lembrou que o nível de corrupção e desvio de dinheiro no país torna improvável que um volume desse tamanho tenha sido acumulado e preservado.

O que existe de registro público é bem menor. O site Bitcointreasuries.net lista a Venezuela com cerca de 240 BTC, algo em torno de US$ 22 milhões na época, segundo a Fortune. Isso coloca o país entre os governos com bitcoin, mas muito longe dos números que circularam.

O caso PDVSA-Cripto

A relação entre cripto e petróleo na Venezuela tem um caso concreto. Em abril de 2024, o Ministério Público venezuelano anunciou a prisão do ex-ministro do Petróleo Tareck El Aissami, acusado de traição, lavagem de dinheiro e associação criminosa num esquema que vendia petróleo por meio do órgão regulador de criptoativos do país, em paralelo à estatal PDVSA. Segundo o procurador-geral, os envolvidos convertiam o dinheiro das vendas em criptoativos para dificultar o rastreamento. O caso ficou conhecido como PDVSA-Cripto, e o então regulador de cripto, Joselit Ramírez, já havia sido preso em março de 2023, segundo a Associated Press.

O caso mostra os dois lados da questão: cripto foi usada para contornar o sistema bancário, mas o dinheiro se perdeu por corrupção, e não virou reserva do Estado.

Do petro ao dólar digital: a trajetória venezuelana

A relação do Estado venezuelano com as criptomoedas é antiga e cheia de idas e vindas. Segundo o relatório de 2024 da Chainalysis sobre a América Latina, o país lançou em 2018 o petro (PTR), uma moeda estatal que deveria ser lastreada em petróleo e minerais, e o encerrou de forma abrupta em 2024. No mesmo período, houve repressão à mineração de bitcoin e bloqueio de acesso a algumas exchanges conhecidas.

A Chainalysis também registra que, na tentativa de contornar sanções, o comércio ilícito de petróleo do governo Maduro acabou envolvido em operações com cripto, o que levou a acusações formais do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Enquanto isso, a população usa cripto para se proteger

Do lado dos cidadãos, a motivação é outra. A Chainalysis apontou para a Venezuela um crescimento anual de 110% no valor recebido em cripto entre julho de 2023 e junho de 2024, o maior da região, e uma relação inversa clara entre a cotação do bolívar em dólar e o volume mensal de cripto recebido. Quando a moeda local perde valor, a procura por stablecoins e bitcoin sobe.

No relatório de 2025, a Venezuela aparece em quarto lugar na América Latina, com US$ 44,6 bilhões em cripto recebidos no período analisado, atrás de Brasil (US$ 318,8 bilhões), Argentina (US$ 93,9 bilhões) e México (US$ 71,2 bilhões). Para o país, cripto já é parte do dia a dia financeiro, e não apenas uma ferramenta do governo.

O ponto fraco do plano: stablecoins podem ser congeladas

Mesmo que um governo sancionado acumule cripto, stablecoins centralizadas podem ser bloqueadas pelo emissor. Em comunicado de 23 de abril de 2026, a Tether, emissora do USDT, informou ter congelado mais de US$ 4,4 bilhões em ativos ao longo da sua história, mais de US$ 2,1 bilhões deles ligados a pedidos de autoridades americanas, e disse cooperar com mais de 340 órgãos de investigação em 65 países. Diferente do bitcoin em autocustódia, um saldo em USDT depende da decisão do emissor.

Nos Estados Unidos, o GENIUS Act, sancionado em 18 de julho de 2025, criou um regime federal para stablecoins de pagamento, com exigência de reservas de 100% em ativos líquidos, como dólares e títulos do Tesouro de curto prazo, e divulgação mensal dessas reservas. Emissores regulados ficam mais expostos à pressão das autoridades, o que reduz o espaço para uso de stablecoins por governos sancionados.

O que isso tem a ver com o investidor brasileiro

O Brasil é vizinho da Venezuela e o maior mercado cripto da região, e por isso suas regras importam para o fluxo de stablecoins na fronteira e nos pagamentos internacionais. A Resolução BCB 521, de novembro de 2025, incluiu no mercado de câmbio, a partir de 2 de fevereiro de 2026, os pagamentos e transferências internacionais com ativos virtuais e a compra e venda de stablecoins feitas por prestadoras de serviços de ativos virtuais.

Para a pessoa física, stablecoins como USDT e USDC são declaradas na ficha Bens e Direitos, grupo 08, código 03, quando o custo de aquisição for de R$ 5 mil ou mais, com o nome e CNPJ da corretora ou a indicação de custódia própria. Trocar uma cripto por outra também é fato tributável. O guia para declarar bitcoin no imposto de renda traz o passo a passo.

E vale a lição do caso: números muito grandes, sem endereço de carteira ou documento por trás, merecem desconfiança antes de virar argumento de investimento.

Perguntas frequentes

A Venezuela tem US$ 60 bilhões em bitcoin?

Não há comprovação. A estimativa, publicada pelo Project Brazen em janeiro de 2026, não trouxe endereços de carteiras. O registro público do Bitcointreasuries.net aponta cerca de 240 BTC.

O que foi o petro venezuelano?

Uma criptomoeda estatal lançada em 2018, que deveria ser lastreada nas reservas de petróleo e minerais do país. O projeto foi encerrado em 2024, segundo a Chainalysis.

Stablecoins como o USDT podem ser bloqueadas?

Sim. A emissora pode congelar endereços. Em abril de 2026, a Tether informou já ter congelado mais de US$ 4,4 bilhões em ativos, em cooperação com mais de 340 órgãos de investigação em 65 países.

Como declarar stablecoins no imposto de renda?

Na ficha Bens e Direitos, grupo 08, código 03, pelo custo de aquisição em reais, quando for de R$ 5 mil ou mais. Na discriminação, informe tipo, quantidade e onde estão custodiadas.


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Contadora e editora-chefe do BTCnizando. Especialista em tributação de criptomoedas pela Faculdade Trevisan. Ajuda brasileiros a declarar Bitcoin no IR com segurança.