Um novo relatório revelou que hackers norte-coreanos, associados ao infame Lazarus Group, estão se infiltrando no setor de criptomoedas de maneira ainda mais ousada: criando empresas de fachada nos Estados Unidos para disseminar malware entre desenvolvedores.

Segundo a Reuters, a investigação da empresa de cibersegurança Silent Push identificou duas firmas falsas, Blocknovas LLC (no Novo México) e Softglide LLC (em Nova York), utilizadas como disfarces para operações de espionagem e ataques cibernéticos — uma violação direta das sanções impostas pelos EUA.

Falsas Oportunidades de Trabalho e Armadilhas Digitais

Os hackers se apresentavam como recrutadores legítimos em plataformas como LinkedIn, oferecendo vagas de trabalho atraentes para profissionais de criptoativos. Durante as entrevistas, as vítimas eram induzidas a instalar supostos softwares de avaliação ou contratação, que na realidade eram programas maliciosos.

A operação foi atribuída a uma subunidade do Lazarus Group, comandada pelo Bureau de Reconhecimento Geral da Coreia do Norte. O endereço físico da Blocknovas, listado na Carolina do Sul, revelou ser apenas um terreno vazio, enquanto a Softglide foi registrada por meio de um serviço de contabilidade em Buffalo, dificultando ainda mais a identificação dos reais responsáveis.

Entre as ferramentas usadas, foram detectadas variantes de malwares capazes de roubar dados, assumir o controle remoto dos sistemas e infiltrar redes inteiras — armas digitais já ligadas a outras ações do regime norte-coreano.

FBI Entra em Ação

O FBI apreendeu o domínio da Blocknovas, publicando um aviso oficial no site, alertando que ele foi utilizado para enganar candidatos e propagar malware. A ação reforça a preocupação crescente com a facilidade de criação de empresas fictícias nos EUA, exploradas para fins criminosos e de espionagem.

Uma Estratégia Repetida

Essa não é a primeira vez que o Lazarus Group aposta em vagas de trabalho falsas como isca. Em campanhas anteriores, como a operação “ClickFix”, os hackers se passaram por empresas conhecidas como Coinbase e Tether para atrair profissionais de marketing e negócios no setor de finanças centralizadas (CeFi).

Um dos maiores golpes atribuídos ao grupo ocorreu em 2021, quando um falso processo seletivo levou ao hack de US$ 625 milhões da Ronin Bridge, impactando diretamente a rede do Axie Infinity.

Conclusão

O episódio evidencia não apenas a criatividade dos grupos de hackers patrocinados por estados, mas também a vulnerabilidade dos sistemas de registro comercial nos Estados Unidos. Em um cenário onde o setor de criptoativos continua a crescer, desenvolvedores e empresas precisam redobrar a atenção contra armadilhas disfarçadas de oportunidades.

Como a armadilha da entrevista funcionava

O relatório da Silent Push detalha o roteiro da campanha, que os pesquisadores chamam de Contagious Interview. Além da Blocknovas e da Softglide, havia uma terceira fachada, a Angeloper Agency, que não chegou a ser registrada nos EUA. A Blocknovas era, de longe, a mais ativa das três.

As vagas eram publicadas em plataformas legítimas de freelancers e de emprego do setor, como Upwork, Freelancer e CryptoJobsList. O candidato passava por várias etapas de candidatura até chegar a uma página que pedia um vídeo de apresentação. Ao clicar, surgia um aviso falso dizendo que o acesso à câmera ou ao microfone estava bloqueado, com instruções para copiar e colar um comando no terminal. Era esse comando que instalava o malware, com versões para Windows, macOS e Linux.

Os perfis dos supostos funcionários usavam fotos geradas por inteligência artificial, e a infraestrutura era escondida atrás de VPN. Segundo a Silent Push, houve vítimas confirmadas, incluindo um desenvolvedor que relatou ter a carteira MetaMask comprometida.

Os três malwares usados na campanha

  • BeaverTail: programa em JavaScript que rouba dados de extensões de carteiras no navegador, como MetaMask, Phantom e Coinbase Wallet.
  • InvisibleFerret: backdoor em Python que dá ao invasor controle remoto persistente da máquina.
  • OtterCookie: componente que, entre outras funções, monitora a área de transferência, onde muita gente copia endereços e frases de recuperação.

A combinação é pensada para o público-alvo. Um desenvolvedor de cripto costuma ter carteiras instaladas, chaves de acesso a servidores e credenciais de repositórios na mesma máquina em que faz o teste técnico. Um único comando colado no terminal pode abrir caminho para tudo isso.

O peso da Coreia do Norte no roubo de cripto

O episódio aconteceu dois meses depois do maior roubo da história do setor. Em fevereiro de 2025, o FBI atribuiu à Coreia do Norte o roubo de cerca de US$ 1,5 bilhão em ativos virtuais da exchange Bybit, numa operação que o órgão chama de TraderTraitor. A lógica é a mesma das vagas falsas: atacar pessoas e processos, não a criptografia das blockchains.

Para o leitor brasileiro, o alerta vale igualmente. As vagas remotas em dólar atraem muitos desenvolvedores do Brasil, e as mesmas plataformas usadas na campanha são populares aqui. Algumas regras simples reduzem muito o risco:

  • Nunca cole em seu terminal um comando enviado por um recrutador ou por uma página de entrevista.
  • Faça testes técnicos em uma máquina virtual ou em um computador sem carteiras e sem credenciais de trabalho.
  • Confirme a existência da empresa por canais independentes (site oficial, registro comercial, funcionários reais no LinkedIn).
  • Guarde a frase de recuperação fora do computador. Veja nosso guia sobre seed phrase.

Se você cair em um golpe desse tipo, registre boletim de ocorrência, avise a exchange onde tem conta para tentar bloquear fundos e guarde prints e hashes das transações.

Perguntas frequentes

Quais eram as empresas falsas criadas pelos hackers?

A Silent Push identificou três fachadas: Blocknovas LLC, registrada no Novo México, Softglide LLC, registrada em Nova York, e Angeloper Agency, sem registro nos EUA. O FBI apreendeu o domínio da Blocknovas.

Como o malware era instalado nas vítimas?

Durante a etapa de vídeo da falsa entrevista, aparecia um erro de câmera ou microfone com um comando para ser copiado e colado no terminal. Ao executar o comando, a vítima instalava os malwares BeaverTail, InvisibleFerret e OtterCookie.

Desenvolvedores brasileiros também são alvo?

Sim. As vagas eram publicadas em plataformas globais de freelancers usadas por muitos brasileiros, e qualquer profissional de cripto que aceite testes técnicos em casa pode ser alvo.


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Contadora e editora-chefe do BTCnizando. Especialista em tributação de criptomoedas pela Faculdade Trevisan. Ajuda brasileiros a declarar Bitcoin no IR com segurança.