Por Rafael Monteiro
Conteúdo informativo sobre criptomoedas. Não é recomendação de investimento.
A B3, única bolsa de valores do Brasil, anunciou que pretende lançar ações tokenizadas a partir de 2027 e solicitar ao Banco Central uma licença para operar com criptoativos. A informação, segundo o Portal do Bitcoin, marca uma virada estratégica da maior infraestrutura de mercado de capitais do país rumo aos ativos digitais. Para quem investe ou pensa em investir no Brasil, a notícia mexe com vários pontos práticos: desde a forma como você compra e vende ações até a relação com a Receita Federal, passando por produtos como o DIGY11 e outros ETFs cripto já listados na bolsa.
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Não se trata de um projeto teórico. A B3 já opera o sistema de registro de recebíveis tokenizados e vem testando soluções em blockchain há alguns anos. Agora, o passo seguinte é colocar ações de empresas brasileiras em trilhos digitais e, ao mesmo tempo, obter autorização do Banco Central para atuar formalmente como prestadora de serviços de ativos virtuais, categoria criada pela Lei 14.478/2022 e regulamentada pelo BC em 2024.
O que são ações tokenizadas e por que a B3 quer entrar nesse jogo
Tokenizar uma ação significa representá-la como um registro digital em blockchain, mantendo todos os direitos econômicos e políticos do papel original (dividendos, voto em assembleia, participação em ofertas). Na prática, o ativo continua sendo uma ação de verdade, regulada pela CVM, mas a infraestrutura de custódia, liquidação e transferência muda de um sistema centralizado tradicional para um baseado em tecnologia de registro distribuído.
Para a B3, o interesse é duplo. Primeiro, manter relevância num cenário em que exchanges de criptomoedas e plataformas de tokenização começam a disputar a atenção (e o dinheiro) do investidor. Segundo, reduzir custos operacionais. A liquidação de ações no modelo atual leva dois dias úteis (D+2) e envolve diversas camadas de intermediários. Com blockchain, esse ciclo pode cair para minutos ou até segundos, diminuindo o risco de contraparte e liberando capital que hoje fica travado como garantia.
Outros mercados já testam caminhos parecidos. A SIX Digital Exchange, na Suíça, opera desde 2021 com títulos tokenizados. A Bolsa de Hong Kong lançou pilotos em 2024. E a própria SEC, nos Estados Unidos, tem analisado pedidos de corretoras que querem negociar valores mobiliários em blockchain. A B3, ao se mover agora, tenta não ficar para trás numa corrida global.
A licença cripto junto ao Banco Central: o que está em jogo
Além da tokenização de ações, a B3 pretende solicitar ao Banco Central autorização para operar como prestadora de serviços de ativos virtuais (PSAV). Essa é a licença que o BC passou a exigir de exchanges e custodiantes cripto que atuam no Brasil, com base no marco regulatório aprovado em 2022.
A decisão de buscar essa licença indica que a B3 não quer se limitar a tokenizar ações. A ambição parece ser oferecer uma plataforma integrada em que o investidor possa negociar tanto papéis tradicionais quanto criptoativos num mesmo ambiente, com a segurança institucional que uma bolsa regulada oferece.
Para o Banco Central, receber um pedido de licença da própria B3 é significativo. A instituição é a maior depositária de ativos financeiros do Brasil, custodia mais de R$ 5 trilhões em valores mobiliários e tem governança corporativa auditada. Aprovar a B3 como PSAV criaria um precedente forte e poderia acelerar a legitimação do mercado cripto brasileiro perante investidores institucionais que ainda olham o setor com desconfiança.
- A B3 já opera registros tokenizados de recebíveis, o que demonstra familiaridade com a tecnologia.
- A licença de PSAV abrange custódia, intermediação e outros serviços ligados a criptoativos.
- Caso aprovada, a B3 passaria a competir diretamente com exchanges como Mercado Bitcoin, Foxbit e Binance no mercado regulado.
Impacto para quem investe e declara IRPF no Brasil
Se a tokenização de ações na B3 sair do papel em 2027, o investidor brasileiro pode sentir mudanças em vários níveis.
Custódia simplificada. Hoje, suas ações ficam custodiadas na Central Depositária da B3, vinculadas ao seu CPF. Com a tokenização, a custódia poderia migrar para carteiras digitais, embora o mais provável, ao menos no início, seja um modelo híbrido: a B3 mantém o registro em blockchain, mas o investidor continua acessando pelo home broker da corretora.
Liquidação mais rápida. A promessa de liquidação quase instantânea significa que, ao vender uma ação, o dinheiro cairia na sua conta muito mais rápido do que os atuais dois dias úteis. Isso também reduz o risco de calote entre as partes da operação.
Fracionamento real. A tokenização permite dividir uma ação em frações menores do que a unidade. Imagine comprar R$ 10 de uma ação que custa R$ 500. Hoje isso é parcialmente possível com o mercado fracionário, mas a tokenização torna o processo mais flexível e barato.
Declaração de imposto de renda. Aqui mora uma dúvida importante. A Receita Federal já exige que criptoativos sejam declarados na ficha de Bens e Direitos, com código específico. Ações, por sua vez, têm seus próprios códigos. Se a B3 tokenizar ações, como ficará a classificação? A tendência é que o ativo continue sendo tratado como ação para fins fiscais, já que a tokenização é apenas a camada tecnológica. Mas será preciso aguardar orientação formal da Receita. O investidor que já opera com ETFs cripto na B3, como o DIGY11, sabe que a tributação segue as regras de renda variável. Algo semelhante deve acontecer com ações tokenizadas.
Notas de corretagem e informes de rendimento. A B3 provavelmente continuará fornecendo os dados que alimentam o informe de rendimentos da corretora. A diferença pode aparecer nos bastidores, não necessariamente na tela do investidor.
Concorrência com exchanges e o futuro do mercado cripto brasileiro
A entrada da B3 no mercado de criptoativos como PSAV licenciada pelo Banco Central pode redesenhar a concorrência no setor. Hoje, exchanges nacionais como Mercado Bitcoin, Foxbit, NovaDAX e a operação local da Binance dominam a negociação de cripto no Brasil. Com a B3 no jogo, o investidor ganha mais uma opção, dessa vez com a chancela de uma instituição que já é regulada pela CVM e pelo próprio BC.
Por outro lado, as exchanges cripto têm vantagens que a B3 precisará construir do zero: experiência em custódia de chaves privadas, suporte a dezenas de blockchains, velocidade de listagem de novos tokens e uma base de usuários nativamente digital. A B3 trará credibilidade institucional, mas terá que provar agilidade num mercado que se move em ciclos de semanas, não de anos.
Há também a questão dos produtos já existentes. A B3 lista ETFs de criptomoedas (incluindo o DIGY11, focado em ativos digitais), contratos futuros de Bitcoin e fundos de investimento com exposição a cripto. A tokenização de ações e a licença PSAV criariam uma ponte entre esses dois mundos, ações e cripto, dentro de um mesmo ecossistema.
- Exchanges nacionais podem ser pressionadas a elevar padrões de governança e transparência.
- O investidor institucional, que hoje evita exchanges cripto por questões regulatórias, pode migrar para a B3.
- Corretoras tradicionais que operam na B3 poderiam oferecer cripto sem precisar de parceria com exchanges.
O que observar daqui pra frente
O prazo de 2027 pode parecer distante, mas no ritmo regulatório brasileiro é apertado. Para que ações tokenizadas cheguem ao mercado nessa data, alguns marcos precisam ser cumpridos antes.
Primeiro, a CVM precisa definir como ações representadas em blockchain se encaixam no arcabouço de valores mobiliários. A autarquia já tem um sandbox regulatório e publicou pareceres sobre tokenização, mas ainda não há uma norma definitiva que permita a uma bolsa negociar ações diretamente em blockchain.
Segundo, o Banco Central precisa analisar e aprovar o pedido de licença PSAV da B3. O processo pode levar meses, e o BC tem demonstrado cautela ao conceder essas autorizações. Até outubro de 2026, poucas empresas receberam o selo definitivo.
Terceiro, a infraestrutura tecnológica da B3 precisará ser adaptada. A bolsa já opera sistemas de altíssima performance, mas blockchain traz desafios diferentes: interoperabilidade entre redes, gestão de chaves criptográficas em escala e integração com o sistema de pagamentos brasileiro (SPB e Pix).
Para o investidor, o conselho prático é: acompanhe as consultas públicas da CVM e do Banco Central sobre tokenização e PSAVs. Essas janelas de participação costumam antecipar as regras do jogo. E se você já declara criptoativos ou ETFs como o DIGY11 no imposto de renda, fique atento a eventuais mudanças nos códigos de classificação da Receita Federal quando a tokenização de ações se concretizar.
A B3 está apostando que o futuro do mercado de capitais brasileiro passa por blockchain. Se essa aposta se confirmar, o investidor que entender as regras cedo estará melhor posicionado quando a mudança chegar.
Perguntas frequentes
Quando a B3 pretende lançar ações tokenizadas?
A B3 planeja iniciar a tokenização de ações brasileiras a partir de 2027. Antes disso, a bolsa precisa obter aprovações regulatórias da CVM e avançar na infraestrutura tecnológica baseada em blockchain.
O que muda para o investidor com a licença cripto da B3 junto ao Banco Central?
Se o Banco Central aprovar a B3 como prestadora de serviços de ativos virtuais (PSAV), a bolsa poderá negociar criptoativos diretamente, competindo com exchanges como Mercado Bitcoin e Binance. O investidor ganharia a opção de comprar cripto num ambiente com a mesma governança das ações tradicionais.
Ações tokenizadas na B3 terão tributação diferente no imposto de renda?
A expectativa é que ações tokenizadas continuem sendo tratadas como ações para fins de IRPF, já que a tokenização altera a camada tecnológica, não a natureza jurídica do ativo. Porém, a Receita Federal ainda não publicou orientação específica sobre o tema, e o investidor deve ficar atento a possíveis mudanças nos códigos de declaração.
ETFs cripto como o DIGY11 serão afetados pela tokenização de ações na B3?
Não diretamente. O DIGY11 e outros ETFs de criptomoedas continuarão funcionando como fundos listados na B3. A tokenização de ações é um projeto separado, mas ambos fazem parte da estratégia da bolsa de integrar ativos digitais ao mercado de capitais brasileiro, o que pode ampliar a oferta de produtos para o investidor.
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