O estrategista Tom Lee, cofundador da Fundstrat e presidente do conselho da BitMine, comentou na CNBC o que motivou a recente queda do Bitcoin (BTC) e Ethereum (ETH). Nas últimas semanas, ambos os ativos registraram correções superiores a 10%. A movimentação reacendeu dúvidas sobre um possível retorno ao ciclo negativo. No entanto, segundo Lee, o cenário atual tem outra origem.
Um erro técnico desencadeou o problema
De acordo com Lee, tudo começou em 10 de outubro. Uma stablecoin exibiu um preço incorreto em uma grande exchange. O ativo, que deveria valer US$ 1, apareceu cotado perto de US$ 0,65 após um bug no feed interno da plataforma, afetando também o mercado de bitcoin.
Por causa disso, vários sistemas automáticos de redução de alavancagem (ADL) foram acionados. Essas ferramentas liquidam posições para evitar risco extremo. Como o erro se propagou rapidamente, as liquidações ocorreram em cadeia.
Lee afirma que o episódio poderia ter sido evitado. Bastaria a exchange usar dados de preço de mais fontes, e não apenas de cotações internas. Isso impediria o colapso repentino da estabilidade do ativo, inclusive do bitcoin.
A liquidez secou após o evento
A falha provocou uma queda na liquidez das exchanges. Os market makers, que dão profundidade ao mercado, perderam margens durante as liquidações e não conseguiram reequilibrar suas posições imediatamente. Como resultado, cada movimento negativo ficou mais intenso.
Segundo Lee, isso já aconteceu antes. Em 2022, após um choque semelhante envolvendo bitcoin, o mercado levou cerca de oito semanas para se estabilizar. Agora, já se passaram aproximadamente seis semanas desde o início do evento, o que indica que a fase crítica pode estar perto do fim.
Manipulação pode ter acelerado as quedas do Bitcoin
Durante a entrevista, Lee também concordou que grandes players podem ter pressionado os preços por meio de contratos futuros e perpétuos. Esses movimentos intensificam a fragilidade já existente, mas não mudam a causa original da correção.
Não há sinal de reversão estrutural do ciclo
Para Lee, a recente queda não indica o início de um novo bear market. Pelo contrário: ela é o resultado de um evento técnico incomum — um bug, seguido por liquidações e perda temporária de liquidez. Assim que o mercado recuperar seus níveis normais, os preços do bitcoin devem voltar a refletir fatores macroeconômicos e de adoção.
O que a Binance disse sobre o 10 de outubro
A exchange citada por Lee é a Binance. Segundo reportagem do The Block, três ativos perderam a paridade dentro da plataforma naquela noite: a stablecoin USDe, da Ethena, que chegou a ser negociada abaixo de US$ 0,66, e os tokens de staking líquido BNSOL e WBETH. A Binance pagou cerca de US$ 283 milhões em compensações a usuários de futuros, margem e empréstimos que usavam esses ativos como garantia e foram afetados entre 21h36 e 22h16 (UTC) de 10 de outubro de 2025.
A versão da própria Binance tem uma nuance importante em relação à fala de Lee. A exchange afirma que a queda extrema do mercado aconteceu antes da perda de paridade: os preços tocaram o fundo entre 21h20 e 21h21 (UTC), e o descolamento mais forte só começou depois das 21h36. Mesmo assim, a empresa se comprometeu a incluir o preço de resgate desses ativos no cálculo dos índices que usa como referência e a criar um piso de preço para o índice do USDe, justamente o tipo de ajuste que Lee disse que teria evitado parte do problema.
A Ethena contestou o termo depeg. Para o CEO Guy Young, não é correto falar em perda de paridade do USDe quando um único ambiente de negociação estava fora da linha das pools com maior liquidez. Na prática, o episódio mostrou o risco de uma plataforma avaliar garantias usando apenas o próprio livro de ofertas.
Por que o ADL transforma uma falha em efeito dominó
Em exchanges de derivativos, cada posição alavancada tem um preço de liquidação calculado a partir do valor da garantia. Se essa garantia é uma stablecoin que, dentro da plataforma, passa a valer 34% menos, milhares de contas ficam subitamente abaixo da margem mínima, mesmo sem nenhuma mudança real no ativo em outros mercados. As liquidações vendem posições a mercado, o que derruba ainda mais os preços.
Quando o fundo de seguro da exchange não cobre as perdas, entra o ADL (auto-deleveraging), que fecha automaticamente posições lucrativas do outro lado para equilibrar o sistema. Isso atinge até quem estava protegido com hedge, e ajuda a explicar a queda de liquidez descrita por Lee: market makers tiveram posições encerradas à força e demoraram a voltar ao mercado.
O que o episódio ensina ao investidor brasileiro
O caso atingiu sobretudo quem operava derivativos alavancados em exchange estrangeira. Quem apenas tinha bitcoin à vista sofreu a queda de preço, mas não perdeu a posição. Se você usa alavancagem, evite concentrar a margem em um único ativo que a própria plataforma precifica, e reduza o tamanho das posições para não depender de um preço de liquidação próximo.
No Brasil, a regulamentação das prestadoras de serviços de ativos virtuais pelo Banco Central, publicada em novembro de 2025 (Resoluções BCB 519, 520 e 521), exige governança, controles internos e regras de proteção ao cliente, mas não elimina o risco de mercado. Para quem quer reduzir a exposição a falhas de plataforma, a alternativa é manter a parte de longo prazo fora da exchange, em autocustódia. Os demais cuidados estão no guia sobre os riscos de investir em criptomoedas.
Assista à entrevista completa (em inglês)
Perguntas frequentes
Quem é Tom Lee?
Tom Lee é cofundador da Fundstrat, casa de análise de Wall Street, e presidente do conselho da BitMine, empresa que acumula ether em tesouraria. Ele é conhecido por previsões otimistas para bitcoin e Ethereum.
A Binance ressarciu os usuários afetados?
Sim. Segundo o The Block, a exchange pagou cerca de US$ 283 milhões em duas etapas a usuários de futuros, margem e empréstimos que tinham USDe, BNSOL ou WBETH como garantia e foram afetados na janela de 21h36 a 22h16 (UTC) de 10 de outubro.
O que é ADL?
É o mecanismo de desalavancagem automática das exchanges de derivativos. Quando o fundo de seguro não cobre as perdas de liquidações, a plataforma fecha à força parte das posições lucrativas do lado oposto, o que pode ampliar a desordem em quedas bruscas.
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