Redação btcnizando

Conteúdo informativo sobre criptomoedas. Não é recomendação de investimento.


A IBM anunciou nesta quarta-feira (24) a integração da sua plataforma de ativos digitais ao ledger blockchain da Swift, a rede que conecta mais de 11 mil instituições financeiras em todo o mundo. A novidade permite que bancos testem depósitos tokenizados usando o padrão de mensagens ISO 20022, com movimentação 24 horas por dia, 7 dias por semana. Para o investidor brasileiro, que já acompanha o avanço do Drex e a tokenização promovida pelo Banco Central, o movimento sinaliza que a infraestrutura global de ativos digitais Swift está se consolidando mais rápido do que muitos imaginavam, e que o Brasil pode ser um dos primeiros a sentir os efeitos práticos.

Segundo a IBM Newsroom, a integração faz parte da expansão do que a empresa chama de Digital Asset Haven, uma infraestrutura on-premises (instalada diretamente nos servidores dos bancos) projetada para que instituições financeiras emitam, custodiem e transfiram ativos tokenizados sem depender de redes públicas de blockchain. A conexão com a Swift é o que torna esse ambiente interoperável com o sistema financeiro tradicional.

O que são depósitos tokenizados e por que a Swift entrou nessa

Depósito tokenizado é, em termos simples, a representação digital de um depósito bancário convencional em uma blockchain ou ledger distribuído. O dinheiro continua sendo do banco, garantido da mesma forma que um depósito comum, mas sua movimentação passa a ser programável, rastreável e, no caso dessa integração, operável 24/7.

A Swift já vinha testando a interoperabilidade entre blockchains desde 2023, quando realizou experimentos com grandes bancos globais para conectar redes tokenizadas à sua infraestrutura de mensagens. O passo dado agora com a IBM é diferente porque sai do ambiente de sandbox e oferece uma solução que instituições podem instalar em seus próprios servidores, rodando em paralelo com os sistemas legados.

O padrão ISO 20022, adotado na integração, é o mesmo que o Banco Central do Brasil já exige para o Pix e que vem sendo implementado globalmente para transferências internacionais. Isso significa que a linguagem de comunicação entre os sistemas já é familiar para os bancos brasileiros, o que reduz a barreira técnica de adoção.

  • Depósitos tokenizados mantêm a garantia do FGC (no Brasil) ou equivalente local, diferentemente de stablecoins emitidas por empresas privadas.
  • A liquidação 24/7 elimina o problema de horários de corte e fusos horários em transferências internacionais.
  • O padrão ISO 20022 padroniza dados de pagamento e facilita compliance automatizado.

O que muda para o sistema financeiro brasileiro

O Brasil não está assistindo de fora. O Drex, a plataforma de moeda digital do Banco Central, opera sobre uma lógica semelhante: tokenizar ativos financeiros regulados (títulos públicos, debêntures, depósitos) para que circulem em ambiente de ledger distribuído com liquidação instantânea. A fase de testes do Drex já envolveu mais de 15 consórcios bancários, e a previsão do BC é de lançamento em etapas ao longo de 2027.

A integração IBM-Swift cria uma ponte potencial entre o ecossistema Drex e o sistema financeiro global. Se um banco brasileiro que participa do Drex também opera na rede Swift (e quase todos operam), a adoção do Digital Asset Haven poderia permitir que depósitos tokenizados em real fossem reconhecidos e transferidos internacionalmente sem conversão manual ou intermediários adicionais.

Para o investidor pessoa física, as implicações são indiretas, mas relevantes:

  • Remessas internacionais tendem a ficar mais baratas e rápidas. Hoje, enviar dinheiro do Brasil para o exterior via Swift tradicional pode levar de 1 a 3 dias úteis e custar entre R$ 100 e R$ 250 em taxas. Com liquidação tokenizada 24/7, esse processo pode cair para minutos.
  • Investimentos em ativos tokenizados no exterior podem se tornar mais acessíveis. A CVM já vem regulamentando tokens de valores mobiliários (security tokens) e a interoperabilidade Swift facilitaria a custódia cruzada entre jurisdições.
  • A concorrência entre stablecoins privadas (como USDT e USDC) e depósitos tokenizados regulados deve se intensificar. Para quem usa stablecoins como reserva de valor ou proteção cambial, a alternativa bancária regulada pode oferecer mais segurança jurídica.

Implicações para quem declara cripto no IRPF

Um ponto que merece atenção é a classificação tributária dos depósitos tokenizados. Hoje, a Receita Federal exige que criptoativos sejam declarados na ficha de Bens e Direitos sob códigos específicos (grupo 08). Stablecoins, por exemplo, entram no código 02 do grupo 08. Mas um depósito tokenizado emitido por um banco regulado pelo Banco Central pode ser tratado simplesmente como depósito bancário, e não como criptoativo.

Essa distinção importa por três razões:

  • Depósitos bancários não precisam ser reportados a exchanges ou à Receita Federal com as mesmas regras da IN 1888/2019 (que obriga plataformas a informar operações com criptoativos acima de R$ 30 mil mensais).
  • A tributação sobre ganho de capital em criptoativos (15% a 22,5% conforme a faixa) pode não se aplicar se o ativo for classificado como depósito bancário convencional.
  • Para operações internacionais, a regra de câmbio pode prevalecer sobre a regra de cripto, o que altera prazos e alíquotas.

Ainda não há orientação específica da Receita Federal sobre depósitos tokenizados via Swift. Mas o investidor brasileiro que opera com ativos digitais precisa acompanhar esse tema de perto, porque a fronteira entre “cripto” e “ativo bancário digital” está cada vez mais borrada.

IBM, Swift e a disputa pela infraestrutura cripto institucional

A movimentação da IBM não acontece no vácuo. Grandes empresas de tecnologia e consultorias financeiras estão disputando o mercado de infraestrutura para ativos digitais institucionais. A Mastercard já conectou sua rede de tokenização a bancos europeus. A Visa testa liquidação em stablecoins. O JPMorgan opera o Onyx, plataforma própria de pagamentos tokenizados com volume diário que já ultrapassou US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões).

O diferencial da IBM nessa corrida é a abordagem on-premises: em vez de obrigar os bancos a migrar para uma nuvem pública ou uma blockchain aberta, o Digital Asset Haven roda nos servidores do próprio banco. Para instituições com exigências regulatórias rígidas (como bancos brasileiros sujeitos à Resolução 4.893 do CMN, que trata de política de segurança cibernética), isso pode ser decisivo.

A integração com a Swift, por sua vez, resolve o problema da interoperabilidade. Uma plataforma de ativos digitais que funciona apenas internamente tem utilidade limitada. Ao conectar o Digital Asset Haven à rede que processa trilhões de dólares em transações diárias, a IBM oferece aos bancos uma forma de tokenizar sem se isolar do sistema global.

O que observar daqui para frente

Três desdobramentos merecem acompanhamento nas próximas semanas e meses:

  • Adesão de bancos brasileiros. Bradesco, Itaú e Banco do Brasil já participam de testes do Drex e também são usuários da rede Swift. Se algum deles aderir ao Digital Asset Haven da IBM, o ecossistema de ativos digitais no Brasil ganha tração real.
  • Posicionamento da CVM e do Banco Central. A tokenização de depósitos bancários pode exigir ajustes regulatórios, especialmente na definição de o que é valor mobiliário e o que é instrumento de pagamento. A Resolução CVM 88, que regulamenta tokens de valores mobiliários, pode precisar de atualização.
  • Reação do mercado cripto. Depósitos tokenizados regulados competem diretamente com stablecoins. Se a liquidação 24/7 via Swift se tornar padrão, a utilidade de stablecoins como ponte entre mercados pode diminuir, o que afeta volumes em exchanges brasileiras como Mercado Bitcoin, Foxbit e Bitget.

A integração anunciada pela IBM é, por enquanto, uma oferta de infraestrutura, não um produto para o consumidor final. Mas é o tipo de movimento que redesenha, aos poucos, os trilhos por onde o dinheiro digital vai circular. Para quem investe em bitcoin e criptoativos no Brasil, entender essa camada institucional é tão importante quanto acompanhar o preço no gráfico.

Perguntas frequentes

O que a integração da IBM com a Swift anunciada em 24 de setembro de 2026 permite na prática?

A integração conecta a plataforma Digital Asset Haven da IBM ao ledger blockchain da Swift, permitindo que bancos testem a emissão e a transferência de depósitos tokenizados usando o padrão de mensagens ISO 20022, com liquidação 24 horas por dia, 7 dias por semana. Na prática, instituições financeiras podem movimentar representações digitais de depósitos bancários pela mesma rede que já usam para transferências internacionais.

Depósitos tokenizados via Swift precisam ser declarados como criptoativos no IRPF?

Ainda não há orientação específica da Receita Federal sobre esse tipo de ativo. Depósitos tokenizados emitidos por bancos regulados podem ser classificados como depósitos bancários convencionais, e não como criptoativos sujeitos à IN 1888/2019. A definição tributária vai depender de como o Banco Central e a Receita enquadrarem o instrumento, e o investidor deve acompanhar eventuais normas complementares.

A plataforma Digital Asset Haven da IBM pode ser usada por bancos brasileiros que participam do Drex?

Sim, em tese. O Digital Asset Haven é uma solução on-premises, instalada nos servidores do próprio banco, e a integração com a Swift usa o padrão ISO 20022, que já é adotado pelo sistema financeiro brasileiro (inclusive no Pix). Bancos que participam dos testes do Drex e operam na rede Swift teriam compatibilidade técnica para adotar a plataforma, embora isso dependa de aprovação regulatória do Banco Central.

Essa integração IBM-Swift afeta o mercado de stablecoins no Brasil?

Potencialmente, sim. Depósitos tokenizados regulados oferecem funcionalidades similares às de stablecoins (liquidação rápida, programabilidade, operação 24/7), mas com garantia bancária e enquadramento regulatório mais claro. Se a adoção escalar, stablecoins como USDT e USDC podem perder parte da sua função como ponte entre mercados, o que impactaria volumes negociados em exchanges brasileiras.

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