O que parecia ser apenas mais uma entrevista remota para uma vaga de engenharia na Kraken acabou se revelando uma operação digna de filme de espionagem. A famosa exchange de criptomoedas identificou sinais claros de que o candidato poderia estar ligado ao regime norte-coreano — e transformou o processo seletivo em uma verdadeira missão de contrainteligência digital.
Uma entrevista que virou operação de segurança
Segundo um post oficial da Kraken, a equipe de segurança decidiu manter o processo seletivo em andamento ao invés de encerrar a candidatura assim que os primeiros sinais de alerta surgiram. A intenção era obter mais informações sobre as táticas utilizadas por supostos agentes infiltrados — parte de um esforço crescente da Coreia do Norte para explorar o setor cripto global.
O comportamento do candidato despertou desconfiança desde o início: ele alterou seu nome no meio da chamada de vídeo e parecia receber instruções em tempo real, alternando entre vozes diferentes. Isso levantou a hipótese de que ele estivesse sendo orientado por terceiros durante a entrevista.
Vestígios digitais e identidade falsa
A investigação interna revelou que o e-mail usado pelo suposto engenheiro já havia sido vinculado a tentativas anteriores de infiltração em empresas de tecnologia. Além disso, o perfil no GitHub apresentado no currículo foi relacionado a uma violação de dados, e o documento de identidade enviado pela pessoa parecia falsificado — possivelmente baseado em um caso de roubo de identidade real.
Outro indício preocupante foi o uso de um desktop remoto acessado via VPN, hospedado em um data center — uma estratégia comum para mascarar localização geográfica.
Teste final: falhas em perguntas simples
Na entrevista final, conduzida por Nick Percoco, diretor de segurança da Kraken, o time de recrutamento aplicou testes de verificação inesperados: pediram documentos oficiais, detalhes sobre a cidade de residência e até o nome de restaurantes locais. O candidato ficou visivelmente nervoso, falhou em perguntas básicas e acabou sendo desmascarado.
A Kraken, naturalmente, encerrou o processo seletivo, mas destacou o caso como um sinal de alerta para o setor cripto como um todo.
Ataques patrocinados por Estados: uma ameaça invisível, mas real
Nos últimos anos, o regime norte-coreano tem sido acusado de promover operações complexas visando o roubo de criptomoedas, espionagem cibernética e inserção de agentes em empresas internacionais. O ambiente remoto e descentralizado do setor cripto facilita esse tipo de operação disfarçada.
“Não confie, verifique. Esse princípio fundamental do mundo cripto nunca foi tão necessário”, afirmou Percoco. “Esse tipo de ataque não é apenas uma ameaça para empresas americanas, mas uma questão de segurança global.”
O que a investigação da Kraken encontrou
O relato publicado pela Kraken em 1º de maio de 2025 mostra que o caso ia além de um candidato isolado. O e-mail usado na candidatura constava em uma lista de endereços ligados a hackers norte-coreanos compartilhada por parceiros do setor. A partir dele, a equipe de inteligência de fontes abertas (OSINT) da exchange mapeou uma rede de identidades falsas e apelidos controlados pela mesma pessoa.
Os achados mais relevantes:
- várias dessas identidades já tinham sido contratadas por outras empresas, ou seja, a tática estava funcionando em outros lugares;
- uma das identidades da rede pertencia a um agente estrangeiro que consta em lista de sanções;
- o candidato usava computadores Mac remotos, hospedados em data center e acessados por VPN, para esconder a localização real;
- o documento de identidade apresentado parecia adulterado, com dados de uma vítima de roubo de identidade de cerca de dois anos antes.
Por que a Coreia do Norte quer vagas em empresas cripto
Um funcionário infiltrado em uma exchange pode ter acesso a sistemas internos, carteiras operacionais e dados de clientes. Mesmo sem roubar nada no primeiro momento, ele pode mapear a infraestrutura e abrir caminho para ataques maiores depois.
O setor tinha motivos concretos para estar alerta. Em fevereiro de 2025, o FBI atribuiu à Coreia do Norte o roubo de cerca de US$ 1,5 bilhão em ativos virtuais da exchange Bybit. A Kraken tornou o caso público justamente para que outras empresas reconhecessem os mesmos sinais.
Lições para empresas e profissionais no Brasil
O trabalho remoto é comum nas empresas brasileiras de cripto e de tecnologia, e as mesmas técnicas podem ser usadas aqui. Algumas práticas descritas pela Kraken se aplicam a qualquer processo seletivo:
- verificar a identidade em tempo real, com perguntas que exigem conhecimento local e não podem ser respondidas por um roteiro pronto;
- cruzar e-mails, perfis de GitHub e documentos com bases de vazamentos e listas compartilhadas pelo setor;
- desconfiar de candidatos que trocam de nome, de voz ou que parecem receber instruções durante a chamada;
- tratar segurança como responsabilidade da empresa inteira, e não só da equipe de TI.
Para o investidor, o recado é outro: escolher corretoras com processos de segurança maduros e manter em autocustódia a parte dos ativos que não precisa ficar disponível para negociação.
Perguntas frequentes
Como a Kraken descobriu o candidato norte-coreano?
O e-mail da candidatura estava em uma lista de endereços ligados a hackers da Coreia do Norte compartilhada por parceiros do setor. Durante as entrevistas, o candidato trocou de nome, alternou vozes e usou computadores remotos acessados por VPN.
Por que a Kraken não recusou o candidato logo no início?
A equipe de segurança decidiu avançar com o processo para coletar informações sobre as táticas usadas. Na entrevista final, o diretor de segurança, Nick Percoco, aplicou testes de verificação que o candidato não conseguiu responder.
A Coreia do Norte já roubou exchanges antes?
Sim. Em fevereiro de 2025, o FBI atribuiu ao país o roubo de cerca de US$ 1,5 bilhão em ativos virtuais da Bybit, numa operação que o órgão chama de TraderTraitor.
Antes de você sair
Quanto você paga pra comprar bitcoin? A taxa que a corretora anuncia não é o custo real: falta o spread do livro e o ágio sobre o preço de fora. A gente mede isso todo dia em seis corretoras e publica o ranking — veja quanto custa hoje.
Vai abrir conta em alguma? Juntamos os bônus de cadastro que valem a pena em uma página só, com o que cada um exige pra liberar — veja os bônus.
Uma vez por semana, no seu e-mail. O que aconteceu no bitcoin e o que muda pra quem tem cripto no Brasil, sem hype — assine a newsletter.
