Hackers da Coldcard transferem 64 BTC e 200 ETH para mixers de criptomoedas em tentativa de apagar rastros
Os hackers responsáveis pelo exploit da Coldcard acabam de movimentar milhões de dólares em ativos digitais para protocolos de mixagem, dificultando o rastreamento dos fundos. A notícia de que Coldcard hackers transfer 64 BTC and 200 ETH to cryptocurrency mixers acendeu um alerta em toda a comunidade cripto global, inclusive entre investidores brasileiros que utilizam hardware wallets para proteger seus Bitcoins. A movimentação envolve cerca de US$ 4,17 milhões em Bitcoin e US$ 380 mil em Ether, valores que foram enviados para os protocolos Wasabi e Tornado Cash, respectivamente.
O caso reforça uma preocupação crescente no ecossistema de criptomoedas: mesmo dispositivos considerados entre os mais seguros do mercado podem apresentar vulnerabilidades exploráveis. Para o investidor brasileiro, que enfrenta um cenário regulatório em constante evolução e precisa reportar criptoativos à Receita Federal, entender esse tipo de incidente é fundamental para tomar decisões mais seguras.
O que aconteceu com a Coldcard e como os fundos foram desviados
A Coldcard é uma das hardware wallets mais respeitadas do mercado, especialmente entre os chamados “Bitcoin maximalists”. Diferente de carteiras de software, as hardware wallets armazenam as chaves privadas offline, o que teoricamente as torna imunes a ataques remotos. No entanto, um exploit recente demonstrou que nenhum sistema é 100% inviolável.
De acordo com informações da plataforma de segurança blockchain CertiK, os invasores conseguiram explorar uma vulnerabilidade no dispositivo e obter acesso a fundos significativos. A partir daí, iniciaram um processo meticuloso de lavagem dos ativos roubados.
Os principais movimentos identificados foram:
- 64 BTC (aproximadamente US$ 4,17 milhões) transferidos do endereço bc1q0 para o protocolo de mixagem Wasabi na terça-feira, 5 de agosto de 2026.
- 200 ETH (cerca de US$ 380 mil) enviados para o Tornado Cash na quarta-feira, 6 de agosto de 2026.
Segundo um porta-voz da CertiK, existe a possibilidade de que essa movimentação específica tenha sido realizada por um “explorador menor”, ou seja, um imitador que se aproveitou da vulnerabilidade original após ela se tornar conhecida. “Achamos que pode ser um explorador menor. Provavelmente existem alguns imitadores após o exploit inicial”, declarou o representante da empresa ao Cointelegraph.
A boa notícia parcial é que a maior parte dos fundos roubados ainda permanece rastreável em carteiras controladas pelos atacantes, o que significa que há uma janela de oportunidade para identificação e possível recuperação.
Como funcionam os mixers de criptomoedas e por que dificultam o rastreamento
Para entender a gravidade da movimentação dos hackers da Coldcard, é preciso compreender o que fazem os protocolos de mixagem, também chamados de crypto mixers ou tumblers.
Protocolos como o Tornado Cash e o Wasabi Wallet funcionam da seguinte forma:
1. Recebimento: o usuário deposita suas criptomoedas no protocolo.
2. Agrupamento: os fundos de diversos usuários são reunidos em um pool comum.
3. Embaralhamento: o protocolo redistribui os fundos de maneira que o vínculo on-chain entre remetente e destinatário seja quebrado.
4. Saque: o usuário retira seus fundos em um endereço diferente, sem ligação pública com o depósito original.
Esse processo torna extremamente difícil para investigadores, empresas de análise blockchain e autoridades rastrearem a origem e o destino final dos ativos. Em casos de roubo, como o da Coldcard, o uso de mixers reduz drasticamente as chances de recuperação dos fundos.
Vale lembrar que o Tornado Cash já foi sancionado pelo OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA) em 2022, justamente por seu uso recorrente em lavagem de criptomoedas roubadas. Apesar das sanções, o protocolo continua operando de forma descentralizada, o que dificulta seu bloqueio total.
Impacto para o mercado cripto brasileiro e a regulação nacional
O Brasil tem se posicionado como um dos mercados mais ativos de criptomoedas na América Latina, e incidentes como o exploit da Coldcard geram repercussões importantes por aqui.
Declaração de criptoativos à Receita Federal
Desde 2019, a Receita Federal brasileira exige que operações com criptoativos sejam reportadas por meio da Instrução Normativa 1.888. Investidores que utilizam hardware wallets como a Coldcard para custódia própria (self-custody) estão igualmente sujeitos a essas obrigações. Em caso de perda de fundos por hack, a situação fiscal pode se tornar bastante complexa, já que o contribuinte precisaria comprovar a perda para eventuais deduções ou ajustes na declaração.
Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022)
O Marco Legal das Criptomoedas, sancionado em dezembro de 2022 e regulamentado pelo Banco Central, trouxe diretrizes mais claras para o setor, mas ainda não aborda de forma específica a responsabilidade de fabricantes de hardware wallets em casos de exploits. Essa lacuna regulatória coloca o investidor brasileiro em uma posição vulnerável, dependendo exclusivamente dos termos de uso e da boa-fé dos fabricantes.
Volume de negociação e exposição
O Brasil movimentou mais de R$ 200 bilhões em criptomoedas nos últimos anos, segundo dados da Receita Federal. Com esse volume, qualquer vulnerabilidade em dispositivos populares de armazenamento pode afetar um número significativo de investidores nacionais que optaram pela autocustódia como estratégia de segurança.
Lições de segurança para quem usa hardware wallets
O caso dos hackers da Coldcard serve como um lembrete poderoso de que segurança em criptomoedas exige vigilância constante. Aqui estão algumas práticas recomendadas:
- Mantenha o firmware atualizado: fabricantes de hardware wallets costumam lançar atualizações de segurança. Ignorar essas atualizações pode deixar seu dispositivo exposto a vulnerabilidades já conhecidas.
- Compre apenas de fontes oficiais: adquirir hardware wallets de revendedores não autorizados aumenta o risco de receber dispositivos adulterados.
- Use passphrase adicional: além do PIN e da seed phrase de 24 palavras, considere utilizar uma passphrase extra (25ª palavra) para adicionar uma camada de proteção.
- Diversifique a custódia: não armazene todos os seus fundos em um único dispositivo ou carteira. Distribua entre diferentes soluções de armazenamento.
- Monitore endereços on-chain: utilize ferramentas de monitoramento para receber alertas sobre movimentações suspeitas nos seus endereços.
- Considere multisig: configurações de múltiplas assinaturas (multisig) exigem que mais de uma chave privada autorize uma transação, reduzindo o risco de perda total em caso de comprometimento de um único dispositivo.
O papel das empresas de segurança blockchain
Empresas como a CertiK, que identificou e divulgou a movimentação dos fundos roubados da Coldcard, desempenham um papel essencial no ecossistema cripto. A análise on-chain em tempo real permite que a comunidade, as exchanges e as autoridades acompanhem o fluxo de ativos roubados e, em alguns casos, congelem fundos antes que sejam totalmente lavados.
Outras empresas relevantes nesse segmento incluem Chainalysis, Elliptic e TRM Labs, que fornecem ferramentas de compliance e investigação para exchanges, governos e forças policiais em todo o mundo, incluindo o Brasil.
É importante destacar que, mesmo com o uso de mixers, nem sempre os hackers conseguem escapar. Em diversos casos anteriores, como o hack da Ronin Bridge (Axie Infinity) em 2022, fundos lavados via Tornado Cash foram parcialmente recuperados ou identificados por meio de análise avançada de padrões on-chain.
Perguntas frequentes
O que é a Coldcard e por que ela foi alvo de hackers?
A Coldcard é uma hardware wallet focada em Bitcoin, amplamente reconhecida por seus recursos avançados de segurança, como suporte a air-gapped (operação sem conexão à internet) e multisig nativo. Justamente por armazenar valores significativos, tornou-se um alvo atrativo para hackers que identificaram uma vulnerabilidade explorável no dispositivo.
Os mixers de criptomoedas são ilegais no Brasil?
Atualmente, não existe legislação brasileira que proíba explicitamente o uso de mixers de criptomoedas. No entanto, o uso dessas ferramentas para ocultar a origem de fundos obtidos de forma ilícita pode configurar crime de lavagem de dinheiro, previsto na Lei 9.613/1998. Investidores que utilizam mixers para fins legítimos de privacidade devem manter registros detalhados de suas operações para eventual comprovação junto à Receita Federal.
É possível recuperar criptomoedas enviadas para mixers como Tornado Cash e Wasabi?
A recuperação é extremamente difícil, mas não impossível. Empresas de análise blockchain conseguem, em alguns casos, identificar padrões de comportamento e correlacionar depósitos e saques em mixers. Além disso, se os fundos forem eventualmente enviados para exchanges centralizadas com KYC (verificação de identidade), as autoridades podem solicitar o congelamento dos ativos. No entanto, quanto mais tempo passa e mais camadas de mixagem são aplicadas, menores são as chances de recuperação.
Conclusão
O caso dos hackers que transferiram 64 BTC e 200 ETH roubados da Coldcard para mixers de criptomoedas expõe uma realidade incômoda do mercado cripto: a segurança absoluta não existe, e até os dispositivos mais confiáveis podem ser comprometidos. Para investidores brasileiros, o episódio reforça a importância de adotar múltiplas camadas de proteção, manter-se informado sobre vulnerabilidades e cumprir as obrigações regulatórias junto à Receita Federal.
A transparência da blockchain é, paradoxalmente, tanto a maior força quanto o maior desafio nesse contexto. Se por um lado permite que empresas como a CertiK rastreiem movimentações suspeitas em tempo real, por outro, ferramentas de privacidade como mixers oferecem aos criminosos mecanismos sofisticados para dificultar a recuperação de fundos.
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