A estatal de energia do Paraguai quer transformar equipamentos confiscados de mineradores ilegais em uma operação governamental de Bitcoin movida pela energia de Itaipu. O projeto é inédito no país e pode virar referência para outras nações.
O Que Está Acontecendo
A Administración Nacional de Electricidad (ANDE), empresa estatal de energia do Paraguai, assinou um Memorando de Entendimento (MoU) com a empresa de infraestrutura cripto Morphware para lançar o primeiro projeto governamental de mineração de Bitcoin do país. O anúncio foi feito pelo CEO e fundador da Morphware, Kenso Trabing, diretamente no X (Twitter):
O diferencial do projeto está na origem dos equipamentos: em vez de comprar máquinas novas, o governo vai reaproveitar cerca de 30.000 ASICs confiscados de operações ilegais de mineração em todo o país. Segundo Trabing, as máquinas estão literalmente “empilhadas até o teto” nos depósitos das autoridades.
Por Que o Paraguai Tem Tantas Máquinas Apreendidas?
Nos últimos anos, o Paraguai se tornou um destino popular para mineradores de Bitcoin graças à energia hidrelétrica barata gerada por Itaipu — uma das maiores usinas do mundo, operada em parceria com o Brasil.
O problema: muitos mineradores operavam ilegalmente, furtando energia elétrica ou se registrando como outro tipo de empresa para pagar tarifas menores. Em 2024, o Senado paraguaio aprovou uma lei que pune com até 10 anos de prisão quem roubar eletricidade para atividades de mineração. O resultado foi uma onda de apreensões que deixou o governo com um enorme estoque de hardware cripto sem destino.
Como Vai Funcionar o Projeto
Na fase piloto, cerca de 1.500 máquinas apreendidas serão instaladas em locais controlados pela ANDE, próximos a subestações elétricas. O papel das duas partes é bem definido:
- ANDE mantém a propriedade total dos equipamentos e o controle da operação
- Morphware atua como consultora técnica, oferecendo treinamento e suporte operacional aos funcionários da estatal
Trabing foi direto sobre o escopo do trabalho: “Eles não têm experiência em mineração de Bitcoin. Nosso papel é de consultoria.”
A energia utilizada virá do excedente hidrelétrico paraguaio — eletricidade que hoje é exportada a preços baixos. A lógica econômica é simples, segundo o CEO da Morphware: “Você está vendendo eletricidade por uma fração do que ela pode render se usada localmente.”
O Que Fazer com o Bitcoin Minerado?
Esse é o ponto ainda em aberto. O governo paraguaio discute duas abordagens principais:
- Vender imediatamente os bitcoins para financiar programas públicos como previdência social, educação e infraestrutura
- Reter parte das reservas e usar instrumentos financeiros (como venda de futuros de BTC em bolsas americanas) para proteger a receita contra a volatilidade
A Morphware recomendou uma postura conservadora, baseada em derivativos, e alertou contra a custódia direta de Bitcoin pelo governo — dado que o Paraguai sofreu graves ataques de ransomware em sistemas de múltiplos ministérios nos últimos anos.
Por Que Isso Importa Para o Mercado Cripto
Este movimento do Paraguai é mais um sinal de que governos estão aprendendo a monetizar o Bitcoin em vez de simplesmente coibir seu uso. O projeto tem três dimensões estratégicas importantes:
- Soberania energética: transforma energia excedente — hoje subaproveitada — em ativo digital de alto valor
- Aproveitamento de ativos confiscados: cria um modelo inédito de reutilização de hardware apreendido para gerar receita pública
- Posicionamento geopolítico: posiciona o Paraguai como polo de infraestrutura digital na América Latina
O país já tinha um mercado legal de mineração consolidado, com empresas autorizadas a operar mediante pagamento de taxas. O projeto governamental adiciona uma camada institucional a esse ecossistema — e pode virar modelo para outras nações com excedente energético.






