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Ex-presidente do Banco Central alerta: stablecoins podem enfraquecer o sistema financeiro brasileiro

A rápida expansão das stablecoins no Brasil e no mundo acende um alerta econômico que vai além da volatilidade das criptomoedas tradicionais. Quem fez o aviso foi Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central e atual executivo do Nubank, em artigo publicado na Folha de São Paulo no último domingo (1º).

Para o economista, a adoção crescente dessas moedas digitais representa um risco real à soberania monetária nacional e pode comprometer instrumentos essenciais de política econômica.

O que são stablecoins e por que crescem

Stablecoins são criptomoedas lastreadas em ativos estáveis — geralmente o dólar americano — criadas para oferecer a praticidade das redes blockchain sem a volatilidade extrema do Bitcoin ou Ethereum. No Brasil e em outras economias emergentes, seu crescimento está ligado à facilidade de acesso ao dólar digital e à maior eficiência em transações internacionais.

Campos Neto situa esse crescimento dentro de um fenômeno mais amplo: a tokenização financeira, que consiste em converter ativos físicos e financeiros em representações digitais programáveis. Nesse ecossistema, as stablecoins funcionam como ponte entre o sistema tradicional e o mundo cripto.

O risco da dolarização silenciosa

Um dos pontos mais críticos levantados pelo economista é o que ele chama de dolarização gradual das economias emergentes. Quando uma parcela relevante da população passa a guardar e movimentar riqueza em moedas digitais estrangeiras — especialmente o dólar —, o Banco Central perde capacidade de influenciar a liquidez, o crédito e os ciclos econômicos internos.

Para o Brasil, que historicamente enfrenta pressões inflacionárias e precisa calibrar com precisão sua política monetária, essa perda de controle pode ter consequências diretas na taxa de juros, no câmbio e no custo do crédito para empresas e famílias.

Menos depósitos, menos crédito

Campos Neto também alerta para a desintermediação bancária: o movimento de recursos das contas tradicionais para carteiras digitais e stablecoins reduz a base de depósitos dos bancos. Com menos captação, as instituições financeiras tendem a elevar o custo do crédito — e conceder menos empréstimos.

O resultado prático? Menos dinheiro disponível para financiamentos e empréstimos à economia real, afetando desde o crédito habitacional até o capital de giro das empresas.

O que o ex-presidente do BC propõe

Apesar do diagnóstico preocupante, Campos Neto não defende o bloqueio do avanço tecnológico. Ao contrário: ele reconhece que a tokenização representa uma transformação estrutural irreversível nas finanças globais.

Sua posição é que governos, bancos e reguladores precisam se adaptar com urgência, desenvolvendo marcos regulatórios sólidos, mecanismos de supervisão compatíveis com o mercado tokenizado e instrumentos que permitam concessão de crédito com base em ativos digitais.

Na visão do economista, tecnologias como inteligência artificial e sistemas de rastreamento em blockchain podem ampliar a transparência do sistema — mas apenas se houver estrutura institucional preparada para aproveitá-las.

“O dinheiro será cada vez mais programável e a política monetária terá de se adaptar”, afirmou Campos Neto ao discutir os desafios da nova arquitetura financeira global.

O alerta do ex-chefe do BC chega em um momento em que o Brasil debate novas regulamentações para o mercado cripto, incluindo discussões sobre IOF em criptomoedas e regras para exchanges operando no país. O timing do artigo reforça que o tema está longe de ser resolvido — e que as decisões tomadas agora definirão o espaço das stablecoins na economia brasileira nos próximos anos.

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