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Stablecoins Devem Drenar US$ 500 Bilhões dos Bancos Até 2028, Alerta Standard Chartered

Analista prevê êxodo massivo de depósitos bancários para stablecoins, com bancos regionais dos EUA entre os mais vulneráveis à migração de capital.

O sistema bancário tradicional enfrenta uma ameaça silenciosa mas crescente: as stablecoins. Segundo projeção do Standard Chartered divulgada nesta terça-feira (27), aproximadamente US$ 500 bilhões em dinheiro deverão migrar de depósitos bancários para criptomoedas estáveis até 2028.


A estimativa foi apresentada por Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa de ativos digitais do banco britânico, em relatório que acende o alerta vermelho para a indústria financeira — especialmente para os bancos regionais americanos, identificados como os mais vulneráveis a essa transformação.


A Ameaça à Principal Fonte de Receita dos Bancos


O cerne da preocupação está na margem de intermediação financeira (NIM), métrica que representa a diferença entre o que os bancos ganham com empréstimos (hipotecas, cartões de crédito, financiamentos) e o que pagam sobre os depósitos dos clientes.

“Se os depósitos diminuírem, a receita da margem de intermediação financeira — um importante fator para os lucros dos bancos — também diminuirá”, alertou Kendrick no relatório.


A migração de capital para stablecoins ataca exatamente essa engrenagem: quando o dinheiro sai dos depósitos bancários e é convertido em USDT, USDC ou outras moedas estáveis, os bancos perdem a base que sustenta sua capacidade de emprestar — e, consequentemente, de lucrar.


Bancos Regionais: Os Mais Expostos ao Risco


O relatório do Standard Chartered revela uma vulnerabilidade desproporcional entre diferentes tipos de instituições financeiras. Utilizando dados da Bloomberg e pesquisas internas, Kendrick demonstrou que:

  • Bancos regionais como Huntington Bancshares, M&T Bank, Truist Financial e Regions Financial dependem da NIM para mais de 60% de sua receita total.
  • Bancos diversificados apresentam exposição intermediária.
  • Bancos de investimento como Goldman Sachs e Morgan Stanley são os menos vulneráveis, obtendo menos de 20% de sua receita dessa margem.


A lógica é clara: bancos regionais são estruturalmente dependentes dos depósitos locais para financiar empréstimos locais. Quando esse dinheiro migra para o universo cripto, a espinha dorsal do modelo de negócio dessas instituições fica comprometida.


Lei CLARITY: O Fator Decisivo


O destino desse êxodo bancário está sendo decidido agora em Washington. O Congresso dos Estados Unidos debate a Lei de Clareza do Mercado de Ativos Digitais (Lei CLARITY), que criaria a primeira estrutura regulatória federal abrangente para ativos digitais no país.


Uma das cláusulas mais polêmicas da proposta diz respeito à possibilidade de stablecoins oferecerem rendimentos aos detentores. Se essa funcionalidade for permitida, o incentivo para migrar dinheiro dos bancos para stablecoins se torna exponencialmente maior.


Atualmente, depositar dinheiro em conta corrente rende pouco ou nada nos Estados Unidos. Stablecoins que oferecem 4%, 5% ou mais de rendimento anual — lastreadas em títulos do Tesouro americano ou outros ativos de baixo risco — representariam uma alternativa irresistível para milhões de americanos.


Embora o progresso na aprovação do projeto de lei esteja estagnado no Congresso, Kendrick mantém a expectativa de que a Lei CLARITY chegue à mesa do presidente Donald Trump para assinatura até o final do primeiro trimestre de 2026.


De US$ 1 Trilhão para US$ 500 Bilhões: Revisão Realista


É importante notar que a projeção atual de Kendrick é mais conservadora do que sua estimativa anterior. Em outubro de 2025, o analista havia previsto que as stablecoins poderiam drenar US$ 1 trilhão dos bancos.


A redução para US$ 500 bilhões reflete uma análise mais cautelosa sobre o ritmo de adoção regulatória e a resistência estrutural do sistema bancário tradicional. Ainda assim, meio trilhão de dólares representa uma transferência massiva de capital — equivalente ao PIB da Bélgica.


O Efeito Compensatório: Nem Tudo Está Perdido


Kendrick, no entanto, não prevê o colapso do sistema bancário. Há um mecanismo de compensação importante que pode atenuar o impacto:


“Se os emissores de stablecoins mantiverem uma grande parte de seus depósitos no sistema bancário onde as stablecoins são emitidas, isso deverá reduzir a fuga líquida de depósitos dos bancos”, explica o analista.


A lógica funciona assim: quando você converte US$ 1.000 em USDC, esse dinheiro não desaparece. A empresa emissora da stablecoin (como a Circle, no caso do USDC) precisa manter reservas equivalentes. Se essas reservas ficarem depositadas em bancos, o dinheiro volta para o sistema — apenas com um intermediário a mais na cadeia.


O problema surge quando os emissores de stablecoins optam por alocar reservas em títulos do Tesouro, fundos do mercado monetário ou outros instrumentos que não passam pelo sistema bancário tradicional. Nesse cenário, a fuga de depósitos é real e irreversível.


Stablecoins no Brasil: Tendência Global
Embora o relatório do Standard Chartered foque no mercado americano, o fenômeno das stablecoins é global. No Brasil, essas criptomoedas já dominam o mercado com volume de transações 12 vezes maior que o Bitcoin, segundo dados recentes do setor.


A popularidade das stablecoins no país reflete a busca por dolarização do patrimônio, proteção contra volatilidade cambial e acesso a mercados internacionais sem intermediação bancária tradicional. Para brasileiros, converter reais em USDT ou USDC representa não apenas uma decisão de investimento, mas uma estratégia de preservação de valor.


O Futuro da Intermediação Financeira


A disputa entre bancos e stablecoins não é apenas sobre tecnologia — é sobre o futuro da intermediação financeira. Durante séculos, os bancos foram os únicos capazes de oferecer custódia segura, transferências confiáveis e acesso a crédito. As stablecoins desafiam esse monopólio ao oferecer as duas primeiras funções com maior eficiência, velocidade e custo reduzido.


O que está em jogo não é a extinção dos bancos, mas a reconfiguração de seu papel. Instituições que não se adaptarem ao novo paradigma — oferecendo produtos competitivos, integrando-se ao ecossistema cripto e diversificando fontes de receita — correm o risco de se tornarem obsoletas.


Para os bancos regionais dos Estados Unidos, dependentes da margem de intermediação financeira, o desafio é ainda mais urgente. Ou eles encontram formas de coexistir com as stablecoins, ou assistirão meio trilhão de dólares escorrer por entre seus dedos nos próximos dois anos.

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