Os mercados globais passam por uma fase típica de final de ciclo econômico, e não de recessão iminente, segundo o relatório da QCP Capital divulgado na Ásia. Os movimentos recentes — que derrubaram o Bitcoin abaixo dos US$ 90 mil e ampliaram o sentimento de “medo extremo” — refletem uma combinação de fatores macroeconômicos, aperto de liquidez e reprecificação das expectativas de juros.
Queda ampla nos ativos é efeito do aperto de liquidez, não sinal de recessão
A correção sincronizada entre ações, ouro e criptomoedas foi explicada pela QCP Capital como consequência de quatro elementos centrais:
- Aperto de liquidez global
- Reversão nas expectativas de política monetária
- Queda no apetite por risco
- Ajustes de valuation após ganhos excessivos
Tim Sun, pesquisador sênior do HashKey Group, afirmou que esses fatores são “altamente consistentes com um ambiente de final de ciclo”.
Ou seja, não se trata de uma ruptura estrutural ou crise iminente — mas de um ajuste de posicionamento em mercados que subiram rápido demais, especialmente após um período de forte euforia em tecnologia, inteligência artificial e criptomoedas.
Expectativa de corte de juros despenca — e isso afeta o Bitcoin primeiro
Segundo dados do FedWatch da CME, as probabilidades de um corte de 0,25 ponto na próxima reunião do Fed caíram de mais de 60% para apenas 32,8% em poucos dias.
Essa mudança violenta na curva de juros provoca:
- saída de capital de ativos de risco,
- valorização do dólar,
- aumento da aversão ao risco,
- e maior pressão sobre o Bitcoin — considerado um ativo “sensível à duração”.
A QCP destaca que o BTC tem sofrido mais que as ações porque as bolsas ainda contam com um suporte importante: lucros corporativos fortes, especialmente das big techs e das empresas de IA, que continuam investindo pesado em capex e infraestrutura.
Economia dos EUA segue resiliente — cenário é “tarde de ciclo”, não recessão
Jyotsna Hirdyani, chefe da Bitget no Sul da Ásia, explicou que o momento atual se encaixa entre um “meio-tardio e início-final de ciclo”, onde:
- o momentum desacelera,
- vulnerabilidades aumentam,
- e o mercado fica mais sensível a choques macro,
- porém não há sinais vermelhos de recessão.
Entre os indicadores que reforçam a resiliência:
- spreads de crédito nos EUA ampliaram “apenas levemente”;
- estresse sistêmico permanece limitado;
- balanços das famílias seguem sólidos;
- lucros corporativos continuam surpreendendo positivamente.
A QCGroup reforça o mesmo diagnóstico, destacando que a economia dos EUA vive uma dinâmica “K-shaped”, com famílias de maior renda sustentando o consumo enquanto a base tem sido mais pressionada.
Bitcoin abaixo de US$ 90 mil: queda é macro, não estrutural
O Bitcoin rompeu brevemente a região dos US$ 90 mil, puxado pelos mesmos fatores macro citados acima — e amplificado por:
- liquidez mais fina,
- fluxo negativo de ETFs,
- e apostas reduzidas em cortes de juros em 2025–2026.
Segundo analistas, essa queda não altera a saúde estrutural da rede, mas reflete a reprecificação global dos mercados.
Processo de fundo: lento, lateral e dependente de liquidez
Especialistas consultados pela Decrypt e pelo QCGroup concordam em um ponto:
O Bitcoin está entrando em uma fase de formação de fundo — mas não espere uma recuperação rápida em “V”.
O cenário mais provável, segundo Tim Sun (HashKey Group), é:
- um repique fraco,
- seguido de formação de fundo lateral,
- até haver estabilização da liquidez macro.
Hirdyani, da Bitget, reforça que um fundo duradouro só será confirmado quando houver:
- fundos mais altos no gráfico,
- melhora consistente no fluxo de ETFs,
- entradas mais fortes no mercado à vista,
- e sinais mais claros de política monetária do Fed.
Próximo catalisador: reunião do FOMC em dezembro
Toda a atenção agora se volta para a próxima reunião do FOMC (Federal Reserve), que pode:
- aliviar a pressão se usar uma linguagem mais dovish, ou
- reforçar o aperto caso sinalize juros altos por mais tempo.
Um tom mais flexível poderia servir como gatilho para um alívio no Bitcoin e nos criptoativos sensíveis à política monetária.
Conclusão
Apesar da queda intensa e do sentimento de “medo extremo”, o consenso entre analistas é que:
- o momento atual não é recessão, mas fim de ciclo;
- a correção refletiu liquidez fraca e reprecificação de juros;
- fundamentos estruturais permanecem relativamente sólidos;
- e o Bitcoin está mais sensível aos movimentos macro do que nunca.
O mercado aguarda dezembro como ponto de inflexão — seja para confirmar o fundo ou para indicar um novo período de volatilidade.










