O Bitcoin vive hoje uma correção profunda e, ao mesmo tempo, um choque de narrativa com a inteligência artificial. Depois de tocar a região de US$ 126 mil em outubro de 2025, a maior criptomoeda devolveu mais de 50% do valor e voltou para patamares próximos aos vistos em meados de 2024. Não foi um movimento isolado: a fase mais aguda da queda coincidiu com uma sucessão de sinais vindos das grandes empresas de tecnologia e do Federal Reserve, que redesenharam o mapa global de alocação de risco.
Como a correção ganhou força
O ponto de virada começou fora do universo cripto. Balanços de big techs mostraram planos de investimento em IA bem acima do que o mercado esperava, com anúncios de capex de dezenas a centenas de bilhões de dólares para sustentar data centers, chips e infraestrutura de nuvem. Em paralelo, a sinalização de que os juros nos Estados Unidos ficarão elevados por mais tempo fortaleceu o dólar e aumentou o custo de oportunidade de carregar ativos voláteis, como criptomoedas.
Nesse ambiente, ETFs de Bitcoin, que tinham sido grandes motores de demanda em 2024 e início de 2025, passaram a registrar saídas relevantes, retirando liquidez justamente quando o mercado estava mais sensível. A combinação de resgates em fundos, dólar forte e revisão das expectativas para empresas de crescimento desencadeou uma sequência de liquidações em derivativos, desmontando posições alavancadas e empurrando o preço para a casa dos US$ 60 mil em questão de dias.
Do ponto de vista técnico, essa pressão levou o BTC a perder suportes importantes e a testar regiões como US$ 65 mil, US$ 63 mil e até abaixo disso, zonas que hoje aparecem como pontos‑chave no mapa de suporte e resistência. Indicadores de sentimento, como o Fear & Greed Index, chegaram a níveis de “medo extremo”, enquanto métricas de adoção e volume on‑chain mostraram retração típica de fases de estresse mais avançado.
IA como novo ímã de capital
Por trás desses movimentos está uma mudança mais estrutural na disputa por capital. A inteligência artificial deixou de ser apenas um tema promissor e passou a ser tratada como prioridade absoluta em muitas mesas de investimento. Estimativas recentes apontam que Google, Amazon, Meta e Microsoft deverão investir, juntas, algo em torno de US$ 650 a US$ 700 bilhões em IA e infraestrutura associada em 2026 – um valor maior que o PIB de vários países e superior ao capex somado de dezenas de grandes empresas tradicionais.
Quando esse volume de recursos é direcionado para um conjunto pequeno de nomes, o orçamento global de risco fica mais concentrado. Fundos de ações, private equity e venture capital precisam escolher onde alocar e, na margem, o “risco de crescer com IA” tem dominado a conversa. Isso não significa ausência de apetite a risco; significa um risco mais seletivo, que favorece negócios diretamente ligados à nova infraestrutura digital e deixa menos espaço para teses que não orbitam esse eixo, como parte do mercado cripto.
Nesse contexto, o Bitcoin passou a ser tratado quase como um proxy do setor de tecnologia: quando o mercado acredita que os gastos recordes em IA serão compensados por crescimento futuro, há espaço para ativos de crescimento em geral; quando surgem dúvidas sobre retorno desse capex ou sobre sustentabilidade desse ciclo, o ajuste começa nas big techs e rapidamente se espalha para ativos considerados ainda mais arriscados, como o BTC.
O que já foi “limpo” no mercado de Bitcoin
Apesar do tom negativo, a correção recente também teve um lado de saneamento. A queda eliminou boa parte da alavancagem que havia se acumulado em derivativos durante o rali anterior, reduziu posições excessivamente direcionalizadas e devolveu o preço para zonas onde o fluxo passa a depender menos de liquidações automáticas e mais de decisões conscientes de compra e venda.
Do ponto de vista de ciclo, indicadores como o RSI semanal foram para patamares historicamente comprimidos, que em ciclos anteriores apareceram em fases já avançadas de estresse, não no início das quedas mais longas. A leitura on‑chain também começou a mostrar sinais de transição: depois de uma fase de realização por parte de investidores de longo prazo, há evidências de volta gradual à acumulação líquida, o que indica transferência de oferta de mãos mais sensíveis ao preço para investidores mais pacientes.
Isso não garante que o fundo já ficou para trás, mas muda a qualidade do risco. Em vez de um mercado “esticado”, dependente de alavancagem e de narrativa, o que se vê hoje é um ambiente em que boa parte do ajuste de curto prazo já foi feita, e no qual movimentos adicionais de queda tendem a conviver com uma assimetria de retorno mais favorável para quem tem horizonte maior.
IA x Bitcoin: concorrentes ou partes da mesma carteira?
Olhar apenas para a competição por capital pode levar à conclusão de que IA e Bitcoin são rivais diretos. Na prática, o quadro é mais nuançado. A corrida por infraestrutura de IA concentra risco em poucas empresas, expostas a questões regulatórias, de execução e de dependência tecnológica (por exemplo, de fornecedores específicos de chips). Em um cenário em que esses riscos se materializam, a busca por ativos descorrelacionados e independentes de governos ou corporações específicas tende a ganhar força – e é exatamente essa lacuna que o Bitcoin busca preencher, como ativo escasso, global e neutro.
Ao mesmo tempo, a evolução da IA pode se tornar vetor de demanda para cripto em vários pontos: desde a necessidade de infraestrutura descentralizada e transparente até o uso de blockchains em soluções de identidade, registro e monetização de dados. Em outras palavras, o ciclo de investimentos em IA não precisa ser visto apenas como “roubo” de capital de cripto, mas também como um processo que pode, mais à frente, gerar novas pontes entre os dois mundos.
Perspectivas para os próximos trimestres
Olhando à frente, o futuro do Bitcoin em 2026 parece depender de três linhas mestras. A primeira é o ambiente macro: qualquer sinal de que o Fed poderá afrouxar a política monetária mais cedo do que o mercado espera tende a aliviar a pressão sobre ativos de risco, inclusive cripto, e a reabrir espaço para rotação de capital para além da IA.
A segunda são os fluxos institucionais. ETFs e fundos continuam sendo os grandes canais de entrada e saída de capital no mercado de BTC. Um arrefecimento das saídas e, principalmente, a retomada consistente de entradas nesses veículos seriam um indicativo forte de que o investidor profissional voltou a enxergar o ativo como parte estratégica da alocação, e não apenas como trade tático.
A terceira linha é o comportamento do varejo. As últimas semanas já mostraram que, em países como o Brasil, muitos investidores aproveitaram a queda para aumentar posição, indo na contramão do fluxo internacional. Se esse movimento se espalhar e for acompanhado por melhora em métricas de adoção – como endereços ativos, volume transacionado e uso em aplicações reais –, a narrativa de Bitcoin como reserva de valor digital tende a sair fortalecida do ajuste.
Em síntese, a inteligência artificial hoje domina o noticiário e boa parte do orçamento de risco, enquanto o Bitcoin atravessa um dos ajustes mais intensos dos últimos anos. Mas as duas histórias não são excludentes: IA pode continuar sendo o tema da década, e o BTC, ao mesmo tempo, seguir se consolidando como ativo de proteção e diversificação em um mundo cada vez mais dependente de poucas plataformas. Para o investidor, o desafio não é escolher um “vencedor único”, e sim entender como equilibrar essas forças dentro de uma carteira que sobreviva à volatilidade dos ciclos e capture o valor das transformações estruturais que estamos vendo agora.





