Tether ancora plano de recuperação da Drift Protocol e impõe migração para USDT
A Tether, emissora da stablecoin USDT, anunciou um aporte de US$ 127,5 milhões para financiar a recuperação da Drift Protocol, exchange descentralizada (DEX) baseada na Solana que sofreu um exploit de US$ 286 milhões no início deste mês. O acordo, porém, traz uma condição comercial de peso: a Drift deve abandonar sua dependência histórica do USDC, da Circle Internet Financial, e migrar toda sua infraestrutura de liquidação para o USDT.
A movimentação representa uma ofensiva calculada da Tether para conquistar participação de mercado na Solana, blockchain que se consolidou como campo de batalha prioritário para pagamentos de varejo e finanças descentralizadas (DeFi) de alta frequência. Embora o USDT seja o líder global em liquidez, com capitalização de mercado de US$ 185 bilhões, a stablecoin da Tether historicamente ficou atrás do USDC na rede Solana.
Detalhes do plano de recuperação
O framework de recuperação, divulgado em 16 de abril, prevê a injeção de US$ 127,5 milhões da Tether, com parceiros ainda não identificados contribuindo com US$ 20 milhões adicionais para cobrir o rombo causado pelo ataque de 1º de abril. Investigadores atribuíram a ofensiva a cibercriminosos norte-coreanos que teriam passado meses infiltrando a equipe da Drift por meio de engenharia social, se passando por traders legítimos em conferências do setor para ganhar a confiança dos desenvolvedores.
Para ressarcir os usuários afetados, a Drift emitirá um “token de recuperação” especializado. Diferente do token de governança DRIFT, esses novos ativos representam uma reivindicação direta sobre um pool de reembolso de US$ 295 milhões. Os tokens serão transferíveis, permitindo que as vítimas acessem liquidez imediatamente, em vez de aguardarem o longo processo de recuperação de ativos pelas autoridades policiais.
Mandato “USDT-first” é a mudança mais significativa
A alteração estrutural mais relevante do acordo é o chamado mandato “USDT-first”. Toda a camada de liquidação da Drift — o motor que compensa e liquida as operações — será migrada do USDC para o USDT. A transição colocará mais de 128 mil usuários ativos e 35 parceiros do ecossistema sob o guarda-chuva da Tether.
Cindy Leow, cofundadora da Drift, explicou que “a colaboração está estruturada em torno de um mecanismo de recuperação claro, orientado por receita, projetado para priorizar os usuários desde o primeiro dia por meio de uma linha de crédito vinculada à receita, um grant para o ecossistema e empréstimos para formadores de mercado”. Leow acrescentou que “uma parcela substancial da receita da exchange, juntamente com capital de suporte comprometido, será destinada a financiar um pool dedicado de recuperação dos usuários”.
Resposta lenta da Circle abriu caminho para a Tether
Alguns analistas interpretam a migração da Drift para o USDT como uma crítica implícita, porém contundente, à forma como a Circle lidou com o exploit. Logo após o ataque de 1º de abril, investigadores de blockchain proeminentes, incluindo ZachXBT, criticaram publicamente a Circle por não ter congelado os fundos roubados com rapidez suficiente.
A Circle se defendeu afirmando que congela USDC apenas quando legalmente compelida pelas autoridades competentes, argumentando que “o poder de congelar não é o poder de policiar”. A emissora do USDC também classificou uma intervenção unilateral como inconsistente com o devido processo legal e a proteção de direitos de propriedade, embora tenha dito estar pronta para apoiar esforços de responsabilização dentro dos limites da lei.
Contudo, essa postura expôs uma vulnerabilidade comercial. Em momentos de estresse agudo, usuários e protocolos cripto costumam recompensar quem age mais rápido para proteger os fundos — e não quem apresenta o argumento jurídico mais elegante.
Tether se posiciona como “policial” ativa de seus próprios trilhos
A postura da Circle contrasta com a da Tether, que historicamente assumiu um papel mais ativo no congelamento de ativos, seja a pedido de autoridades policiais, seja em resposta a grandes exploits.
“A Tether se move mais rápido em casos como esses”, observou Ignas, analista de DeFi. “Eu sempre preferi o USDC por seu status supostamente ‘mais seguro’. Ainda assim, foi o USDC que sofreu a maior desvalorização durante a crise bancária, enquanto a Circle não conseguiu congelar os fundos hackeados. A Tether está se posicionando como a opção mais segura para o usuário de varejo que quer proteção.”
Lorenzo Romagnoli, cofundador do protocolo de bridge USDT0, que teria congelado sua bridge na Solana em 29 minutos após o exploit da Drift, reforçou: “As pessoas gravitam em direção a soluções que as protegem nos momentos difíceis.”
A disputa pelos trilhos de pagamento da Solana
A movimentação agressiva da Tether ocorre em um momento em que a importância da Solana para o sistema financeiro global atinge um ponto de inflexão. Em fevereiro de 2026, a Grayscale reportou que o volume de transações com stablecoins na Solana atingiu um recorde de US$ 650 bilhões, impulsionado pelas baixas taxas e pelo alto throughput da rede.
Por anos, o USDC da Circle foi o ativo dominante para os usuários da Solana, com uma oferta superior a US$ 8,1 bilhões atualmente — o que representa mais de 52% dos US$ 15,5 bilhões em oferta total de stablecoins na rede. Esse volume é quase o triplo dos US$ 3 bilhões do USDT na blockchain.
Essa dominância foi reforçada por parcerias com gigantes das finanças tradicionais, incluindo Visa, PayPal, Stripe, Western Union e Fiserv, todos executando fluxos de trabalho em produção na rede.
Participação do USDC na Solana está em declínio
No entanto, dados da Blockworks Research indicam que a fatia de mercado do USDC na Solana caiu de um pico de 80% para aproximadamente 55% no início de 2026. No mesmo período, a participação do USDT subiu para 21%.
Observadores do mercado argumentam que o resgate da Drift pela Tether pode ser uma tentativa de acelerar esse declínio e capturar as lucrativas taxas associadas aos pagamentos de varejo de alta velocidade.
Truda, analista independente de criptomoedas, comentou: “Pense mais profundamente. Gaste US$ 100 milhões para salvar a Drift e, de repente, todos os outros protocolos na Solana passam a enxergar o USDT como tendo um ‘mecanismo de resgate implícito’. É uma jogada pela dominação mundial.”
Tether busca legitimidade institucional
A expansão da Tether nos trilhos de pagamento da Solana coincide com uma busca sem precedentes por legitimidade institucional. Considerada durante muito tempo uma pária nos círculos regulatórios dos Estados Unidos, a empresa agora tenta se livrar de sua reputação de opacidade.
A Tether teria contratado a KPMG para conduzir uma auditoria financeira abrangente de suas reservas de US$ 185 bilhões, indo além das “atestações” utilizadas por anos. Essa mudança é parcialmente impulsionada pelo GENIUS Act, legislação estadunidense que exige que emissores de stablecoins cumpram padrões mais rigorosos de transparência. Como parte dessa evolução, a Tether lançou recentemente o “USAT”, um token especializado em conformidade com o novo arcabouço regulatório americano.
A empresa também estaria de olho em uma rodada de captação massiva de US$ 20 bilhões, que avaliaria a companhia sediada em El Salvador em US$ 500 bilhões. Entretanto, segundo o Financial Times, alguns investidores permanecem hesitantes, citando o histórico de US$ 18,5 milhões em acordo com a Procuradoria-Geral de Nova York em 2021 e o escrutínio contínuo sobre o uso do USDT em atividades financeiras ilícitas.
O que esperar a seguir
Enquanto a Drift se prepara para relançar sua plataforma após auditorias conduzidas pelas firmas de segurança OtterSec e Asymmetric, a indústria de criptomoedas acompanha de perto os desdobramentos. O resgate é mais do que um plano de recuperação: é um sinal de que a Tether não se contenta mais em ser a moeda de reserva das exchanges offshore e quer se tornar a camada de liquidação para o futuro dos pagamentos de varejo — e está disposta a investir nove dígitos para garantir essa posição.
Os esforços da Tether rumo à transparência e à conformidade regulatória podem permitir que ela concorra mais diretamente com a postura regulatória que a Circle há muito utiliza como vantagem competitiva central para o USDC. O desfecho dessa disputa terá implicações significativas para toda a rede Solana e para o mercado global de stablecoins.





