A gestora de crédito Flow Capital Partners, sediada em Hong Kong, anunciou planos para tokenizar seu fundo de crédito privado de US$ 150 milhões por meio da plataforma DigiFT, com sede em Singapura, conforme reportado pela Bloomberg nesta sexta-feira. A iniciativa marca mais um passo na crescente tendência de utilizar a tecnologia blockchain como canal de distribuição para produtos financeiros tradicionais.
De acordo com a reportagem, a Flow Capital pretende colocar o fundo de crédito privado na blockchain por meio da DigiFT até o final de abril. A empresa também busca captar US$ 30 milhões adicionais em cotas tokenizadas até o final de 2026, segundo Jacky Tian, diretor de investimentos (CIO) da Flow Capital.
Planos de expansão do fundo
A captação de US$ 30 milhões faz parte de uma estratégia mais ampla da Flow Capital para expandir o tamanho total do fundo para US$ 250 milhões, com uma meta de retorno líquido de 12% ao ano. O fundo foi lançado em meados de 2025 com US$ 125 milhões em capital semente, de acordo com informações da própria empresa.
A tokenização do fundo via DigiFT representa a adoção de uma infraestrutura baseada em blockchain para distribuir cotas de um produto financeiro que, tradicionalmente, é acessado por canais institucionais convencionais. A plataforma DigiFT, regulada em Singapura, atua como intermediária para a emissão e distribuição de ativos tokenizados no mercado asiático.
Grandes nomes do mercado financeiro já adotaram a tokenização
A movimentação da Flow Capital se soma a uma série de iniciativas semelhantes protagonizadas por gigantes do mercado financeiro tradicional (TradFi). A gestora BlackRock, maior administradora de ativos do mundo, lançou o BlackRock USD Institutional Digital Liquidity Fund (BUIDL), um fundo de títulos do Tesouro tokenizado na rede Ethereum, em março de 2024.
Outro exemplo de peso veio do JPMorgan, que colocou no ar seu fundo de mercado monetário tokenizado, o My OnChain Net Yield Fund (MONY), também na Ethereum, em dezembro de 2025. Essas iniciativas sinalizam que a tokenização de ativos do mundo real (RWA, na sigla em inglês) está deixando de ser um experimento para se tornar uma prática adotada por instituições de grande porte.
Especialistas alertam: tokenização não é sinônimo de liquidez
Apesar do otimismo em torno da tokenização, líderes da indústria têm chamado atenção para equívocos comuns, especialmente a ideia de que transformar um ativo em token automaticamente o torna líquido.
Oya Celiktemur, diretora de vendas da Ondo Finance para a Europa, foi enfática durante um painel na Paris Blockchain Week 2026: “Ainda existe essa ideia de que tokenizar algo ilíquido vai, de alguma forma mágica, transformá-lo em um ativo líquido, o que simplesmente não é verdade”, afirmou.
Francesco Ranieri Fabracci, responsável pela expansão de tokenização na Tether, reforçou o mesmo ponto. Segundo ele, a tokenização de um ativo por si só não cria liquidez. Fabracci, no entanto, acrescentou que determinados instrumentos financeiros — como títulos de dívida, fundos de mercado monetário e stablecoins — provavelmente terão liquidez consistente quando operarem em infraestrutura blockchain.
Mercado de ativos tokenizados se aproxima dos US$ 30 bilhões
Os números do setor mostram um crescimento robusto. O valor total de ativos tokenizados cresceu 9,6% nos últimos 30 dias, atingindo US$ 29,9 bilhões nesta sexta-feira, de acordo com dados da plataforma RWA.xyz.
A composição do mercado de ativos tokenizados revela a predominância de produtos de renda fixa e commodities:
- Títulos do Tesouro dos EUA tokenizados: US$ 13,7 bilhões — o maior segmento do mercado
- Commodities tokenizadas: US$ 5,4 bilhões
- Crédito lastreado em ativos: US$ 3,2 bilhões
O segmento de títulos do Tesouro americano tokenizados lidera com ampla vantagem, o que reflete a demanda por instrumentos de baixo risco e alta confiança operando em trilhos blockchain. É justamente nesse contexto que fundos como o BUIDL da BlackRock se consolidaram como referência.
O que a tokenização muda na prática para fundos de crédito
Para gestoras de crédito como a Flow Capital, a tokenização oferece vantagens práticas no processo de distribuição e captação. Ao emitir cotas tokenizadas, o fundo pode acessar uma base de investidores que opera nativamente em plataformas blockchain, potencialmente acelerando rodadas de captação e reduzindo custos operacionais com intermediários.
No entanto, como os especialistas da Ondo Finance e da Tether ressaltaram, o simples fato de colocar um ativo na blockchain não resolve desafios estruturais de liquidez. Fundos de crédito privado, por natureza, investem em ativos com prazos mais longos e menor negociabilidade — uma característica que a tokenização não altera fundamentalmente.
A diferença, argumentam os defensores da prática, está na eficiência do processo: liquidação mais rápida, registros imutáveis em blockchain e maior transparência para os cotistas. Para a Flow Capital, a parceria com a DigiFT é uma aposta de que esses benefícios operacionais serão suficientes para atrair os US$ 30 milhões adicionais que a empresa busca captar até 2026.
O movimento da gestora de Hong Kong reforça uma tendência clara: a tokenização de ativos do mundo real segue ganhando tração entre instituições financeiras, mesmo que o mercado ainda precise amadurecer questões como liquidez secundária, regulação e interoperabilidade entre diferentes redes blockchain.






